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Para todas as crianças que não nasceram cientistas

Um mundo onde o Tocha Humana e os Devoradores de Estrelas também possam ser a salvação


Devoradores de Estrelas e Quarteto Fantástico

Toda criança que nasce com a bênção da inteligência das exatas ou naturais cresce ouvindo o quanto é inteligente. Sempre os gênios de toda sala de aula, os “novos Einsteins” e aqueles que deveriam ter seu QI investigado, os mini-profissionais de exatas são sempre o futuro de toda sala de aula. Uma mesma inteligência, ou até maior, na área de linguagens, no entanto, não. 


Quando somos crianças, crescemos assistindo a filmes onde os super-heróis são cientistas. Físicos. Matemáticos. Químicos. E, se de um lado o Homem de Ferro é engenheiro e físico, o Hulk é físico nuclear e geneticista, o Pantera Negra é físico, o Professor Xavier é geneticista e biofísico, o Fera é bioquímico e o Doutor Estranho é médico, os vilões seguem a mesmíssima lógica. O Coringa, engenheiro químico. Lex Luthor, engenheiro. Doutor Octopus, físico. Hera Venenosa, bióloga, Arlequina, psiquiatra, e qualquer criança que um dia ouse ser protagonista de algo na vida, amante das exatas.


Até porque, com um talento para as linguagens, como seria possível salvar um mundo que sempre é salvo com base na biologia, na saúde e na tecnologia? Para os amantes do mundo das humanas, sobra, no máximo, o jornalismo do Super-Homem e do Homem-Aranha, profissão que, ao invés de salvar o mundo, serve de pano de fundo para os reais poderes e talentos dos dois. 


Foi com esse costume que o novo filme do Quarteto Fantástico chegou às telonas, apresentando ao público o mesmo Reed Richards polímata com múltiplos doutorados nas áreas de física teórica e aplicada, engenharia aeroespacial, química, biologia humana e alienígena, e robótica. O mesmo Senhor Fantástico que, com seus infinitos conhecimentos sobre universo e biologia, não poderia deixar de salvar o mundo mais uma vez. Dessa vez, no entanto, não foi exatamente assim. 


Quarteto Fantástico
Quarteto Fantástico: Primeiros Passos I Reprodução

Em meio a um mundo de cientistas, físicos e exatos, pela primeira vez desde que me lembro, um herói salvou o mundo usando a linguagem. Quando tudo parecia perdido e a ciência, pasme, não era capaz de salvar o mundo, a comunicação o fez. O Tocha Humana fez, e levou consigo toda criança que sente uma aptidão para outra coisa na vida. Outra área no mundo. Outra inteligência. 


Impulsivo, carismático, alegre e extrovertido, Johnny Storm é e sempre foi um comunicador nato. Desde os quadrinhos, é sempre ele quem se comunica com as diversas raças cósmicas, supera barreiras de comunicação e faz amizades intergalácticas. Dessa vez, finalmente, foi justamente essa habilidade a responsável por salvar o mundo. 


Quando a Surfista Prateada Shalla-Bal, interpretada por Julia Garner, chega à Terra para passar a mensagem que decifraria toda a situação do filme, ninguém era capaz de entendê-la. Sem comunicação, sem conexão e sem linguagem, a humanidade morreria no escuro, presa em palavras incompreendidas do dialeto Zenn-Lavian e não chegavam a solução alguma, não importa quanta ciência perpassasse seus meios. 


Quarteto Fantástico
Surfista Prateada I Reprodução

Foi então que o Tocha Humana de Joseph Quinn se levantou, e mudou a lógica de talento, poder e inteligência que acompanha os heróis historicamente. Enquanto Reed, Sue e Ben se reuniam para fazer fórmulas, cálculos e invenções, ele sentava sozinho em seu quarto para estudar linguagens. Pegava as gravações que tinha do que a Surfista dizia, e tentava decifrar os padrões que formavam a tão sonhada comunicação. Tentava ficar fluente na tradução de uma língua alienígena. Tentava salvar o mundo pelas palavras. E conseguiu.


Quando tudo parecia perdido, ele surgiu para dialogar, trazendo conexões que nenhum átomo seria capaz de consagrar. Ele entendeu a Surfista, a situação, as possibilidades, o futuro, e salvou a humanidade com base nele. Com base, uma vez em nunca, na comunicação. 


Não foi esse, claro, o foco do filme ou da salvação. É lógico que a solução final estava, como sempre, nas invenções do Senhor Fantástico, que inventou o teletransporte e protegeu o mundo com base nele. É sem dúvidas pedir demais um herói que receba o crédito por salvar o mundo com a linguagem - mas é possível que, por vezes, a história seja assim. 


Quarteto Fantástico
Tocha Humana I Reprodução

Um ano depois do lançamento de “Quarteto Fantástico: Primeiros Passos”, outro filme seguiu um caminho similar, e encontrou uma possibilidade ainda mais sensacional - mas infelizmente, também não deu a ela o foco e o tempo de tela que merecia. 


“Project Hail Mary”, ou Devoradores de Estrelas, é mais um dos maravilhosos e muito bem elaborados filmes sobre cientistas, missões espaciais e vida fora da terra. Como tantos que vieram antes dele e algumas similaridades especiais com “Perdido em Marte”, de Matt Damon, o novo filme de Ryan Gosling mostra um físico que, ao acordar sozinho no espaço, precisa encontrar uma maneira de voltar à Terra - e o encontra na vida extraterrestre. 


Devoradores de Estrelas
Ryland Grace I Reprodução

Longe do sistema solar e em busca de respostas sobre o que está destruindo o Sol e arriscando a vida humana na Terra, Ryland Grace se encontra a doze anos-luz de seu planeta, sem nenhum sinal de vida ao redor até que uma espécie de nave espacial começa a segui-lo. De dentro dela, surgem mensagens, pequenos cilindros de esculturas. Algum tipo de comunicação feita por alguém que ainda não sabia se comunicar com ele. 


Foi assim que Grace conheceu Rocky, um alienígena rochoso que tinha o necessário para devolver Ryland à Terra e, mais que isso, poderia ajudá-lo a solucionar o problema que vinha matando os planetas de onde os dois vieram. Os dois, no entanto, não conseguiam conversar. 


Devoradores de Estrelas
Rocky I Reprodução

A língua dos Eridianos, povo de Rocky, não era falada, mas sim musical. Nela, cada expressão era como um acorde, com vibrações e tons específicos que passavam mensagens e emoções. Percebendo o padrão aos poucos e desesperado pela possibilidade de comunicação, Grace passou a registrar associações entre vocabulários da língua eridiana e do inglês, começando pelo que era factual e seguindo para as sensações que, desenvolvendo aos poucos uma amizade, os dois protagonistas passaram a dividir. 


De pouco a pouco, Grace conseguiu elaborar um software de tradução, que com base no código criado por ele convertia notas em palavras na tela do computador, e fazia o mesmo das palavras para as músicas que Rocky conseguia compreender. 


Devoradores de Estrelas
Rocky e Grace I Reprodução

Na versão cinematográfica, a ferramenta de tradução dá um passo adiante e converte a linguagem musical em voz alta e contínua, permitindo que o público ouça o personagem alienígena falar, e entendê-lo cada vez mais como um falante de sua própria língua. 


O problema que precisava ser solucionado no filme, no entanto, não era linguístico. Tudo girava em torno do "astrofágico". um microrganismo alienígena que se alimenta de radiação estelar e deixa como rastro luminoso a Linha Petrova, visível no vácuo enquanto esses seres viajam a velocidades próximas à da luz entre o Sol, que vinha sendo destruído por eles, e Vênus.


Devoradores de Estrelas
Linha Petrova I Reprodução

A solução, então, precisava ser científica, fazendo com que todo o processo de conhecimento, tradução e compreensão de uma linguagem alienígena fosse acelerado, atropelado e até pouco valorizado perto da grandeza das descobertas biológicas dos dois. Nada disso, no entanto, seria possível sem aquela primeira tradução que intermediou cada detalhe do projeto e, mais que isso, possibilitou a emocionante conexão de amor e amizade entre os personagens.


Justo nos livros e filmes, famosos pelo que comunicam ao público e o fazem sentir, nunca é essa comunicação o foco das histórias. São raras obras como “A Chegada”, onde naves alienígenas chegam à Terra e os salvadores do mundo são um militar e, milagrosamente, uma linguista. 


A Chegada
Pôster do filme “A Chegada” I Divulgação

Ainda que sejam as palavras, as frases e a comunicação o grande motivo dos filmes emocionarem e se tornarem famosos pelo que fazem sentir, nunca são elas o motivo de salvação dos mundos que, completamente fictícios, são sempre salvos por aquilo que seus roteiros feitos de palavras escolhem priorizar. Ainda que sejam elas a motivação para que todo humano queira estar vivo no planeta possibilitado pela ciência, nunca são elas as inclusas nas bênçãos que esse mundo carrega. Ainda que sejam elas a razão do viver, nunca são elas as salvadoras da vida.


A ciência é linda. Os heróis dela, geniais. Seus fãs, o futuro das brilhantes mentes de exatas que cresceram cheias de referências inspiradoras, sem dúvida alguma. Mas, quem sabe um dia, quando todos esses pequenos cientistas estiverem salvando o mundo na saúde e nas exatas, aqueles que ficaram do lado humano das coisas e se tornaram escritores, roteiristas e mentes criativas, façam escolhas um pouquinho diferentes. Escolham, de vez em quando, escrever um mundo onde a linguagem possa ser motivo de solução. E, quem sabe em um futuro escrito por eles, as referências conversem, se comuniquem e se conectem também com aqueles que, muito além dos números, levam a criatividade, os sentimentos, a linguagem e as palavras como futura inteligência e salvação.


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