CRÍTICA | Você provavelmente não viu Mestres do Universo, mas deveria ver
- Alan Pinheiro

- há 7 minutos
- 5 min de leitura

“Eu queria muito ter visto o filme de He-Man no cinema, mas assisti em casa e não me arrependi. Filmão”
Existem produtoras que gastam milhões de dólares com material promocional e divulgação de seus filmes. Umas colhem os louros desse investimento, enquanto outras nem se dão ao trabalho de gastar, ou até saem no prejuízo. Mestres do Universo (2026), no entanto, se encaixa em outra prateleira, é o clássico filme que tem tudo para crescer no boca a boca. Provavelmente você não viu, mas deveria.
A obra conta a história do príncipe Adam (Nicolas Galitzine), que precisa fugir para a Terra depois que o seu lar, Eternia, é atacado pelo vilão Esqueleto (Jared Leto). Perdendo a Espada do Poder no caminho para a sua nova casa, o protagonista demora quase 20 anos para recuperar o objeto mágico e retornar ao seu planeta natal para livrar Eternia da tirania estabelecida.
O longa, dirigido por Travis Knight, é uma nova interpretação sobre o clássico dos anos 1980. No Brasil, a animação fez sucesso e, naturalmente, a nostalgia levaria os cinemas brasileiros a encher as salas. Foi aqui em território brasileiro que o filme teve o seu melhor desempenho fora dos Estados Unidos, com US$ 8,1 milhões (R$ 41,54 milhões) de arrecadação, à frente de mercados como Reino Unido, Alemanha, México, Austrália e Índia.

Mestres do Universo soma US$ 113,6 milhões (R$ 582,25 milhões) de bilheteria até então. Para não dar prejuízo, o longa precisava faturar ao menos US$ 450 milhões. O fracasso mundial foi apontado pela revista Variety. O veículo destacou que o filme “sairia dos cinemas como um dos maiores fracassos do ano”. E até saiu mesmo, mas a esperança da Amazon e da Mattel residia na chegada ao streaming, o que aconteceu na última quarta-feira (22).
Com a possibilidade de aumentar o alcance do longa, o feito foi imediato. As pessoas começaram a assistir ao filme e se surpreenderam positivamente com a produção, tecendo comentários elogiosos nas redes sociais. Antes desse fenômeno, já tinha ouvido de um amigo a indicação. Era perceptível a empolgação dele com o filme, principalmente quando em meio à opinião surgiam momentos de claro êxtase com a experiência. Não poderia deixá-lo na mão e fui conferir.
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Eu tenho a força
Essa não é a primeira vez que He-Man ganha um filme. Em 1988, Dolf Lundgren protagonizou uma história em que o personagem precisava ir à Terra para buscar ajuda e fugir das garras de Esqueleto. O elemento “mundo real” ainda se mantém, mas na obra mais recente tem um caráter mais palpável. É no ambiente urbano que Adam se desenvolve como pessoa, não mais com um dever de se tornar um símbolo de masculinidade, como acontecia em Eternia.

Seja em encontros amorosos ou durante o trabalho, a ação de um herói musculoso dá lugar a um protagonista que prioriza o diálogo. A reflexão sobre o “ser homem” é o eixo temático principal da obra, que constrói o seu personagem em uma jornada de redescobrimento. Adam teve que deixar a concepção de seu pai, o rei Randor (James Purefoy), sobre si. Achar a espada e voltar para casa é uma metáfora para isso, entender quem Adam é de verdade.
Mesmo com essa mensagem, o pacifismo passa longe de ser uma lei seguida por He-Man, que entende a necessidade de cerrar os punhos e lutar quando é necessário. E quando as lutas começam, a coreografia se destaca, mas o que salta mais aos olhos é a criatividade mostrada pela direção para filmar os conflitos.
Ao contrário dos planos mais convencionais e sem tanto brio no restante da obra, as lutas ganham planos inventivos e com muita mobilidade da câmera. Até quando o slow motion entra em ação, o que particularmente tenho dificuldade de gostar, a ferramenta não parece exagerado ou cafona.
Ainda falando sobre masculinidade, o filme a todo momento questiona o que significa ser homem. Talvez seja esse o grande trunfo da adaptação. A animação era lotada de momentos em que os heróis se viam diante de um conflito ético e moral. Claro, com a roupagem de um desenho infantil.
A relação de desenvolvimento dos personagens deixa a desejar, com exceção do protagonista. O texto sabe a temática que quer trabalhar, mas falha em aprofundar isso em seus núcleos. A própria relação entre Adam e seu pai é confusa, já que as poucas cenas que estão juntos dão a entender coisas completamente diferentes. Faltou um desenvolvimento maior, talvez mais tempo de tela para a resolução desse conflito importante.

A mãe de Adam, por exemplo, se torna tão bem escrita quanto qualquer personagem feminina de Christopher Nolan. É só mais um acessório do roteiro que aparece quando lhe é conveniente e não acrescenta na discussão central. É uma história sobre pais e filhos, literalmente, porque mãe aqui não tem vez.
Mentor (Idris Elba), por outro lado, é quem parece ter seu potencial mais desperdiçado. A perda de confiança e a reflexão sobre ser homem são pinceladas, mas a relação com sua filha Teela (Camila Mendes) é resolvida rapidamente. Quase 20 anos de mágoas e de incertezas desaparecem por conveniência. Não existe um peso real na causa e consequência dessa relação.
Adaptação
Pelas redes sociais, não é difícil encontrar “fãs” da animação original reclamando sobre o humor do filme e, principalmente, pela mensagem escolhida pela produção para tornar o longa mais familiar. Hoje em dia, tudo é woke. Cada personagem que ganha desenvolvimento dramático, cada tempo de tela dado para uma minoria e até decisões sobre figurinos se tornam combustível para atacar o espantalho da indústria woke.
Com Mestres do Universo, não foi diferente.

As adaptações fazem parte da história do cinema. Transpor o material original para um novo formato implica mudanças. É preciso, no entanto, manter o coração da história. O filme de Travis Knight respeita bastante o desenho, principalmente por manter o humor galhofa de uma forma que não desrespeita a inteligência de quem assiste.
Nicholas Galitzine se destaca do início ao fim. Astro de Vermelho, Branco e Sangue Azul (2023) e Uma Ideia de Você (2024), o ator mostra que tem timing cômico, além de sustentar a transformação de Adam de um homem inseguro para um guerreiro bondoso, implacável, mas consciente de sua força. Faltou uma maior mudança de identidade transformado em He-Man, confesso, mas funciona dentro da proposta deste filme.

Jared Leto tem o toque de Midas reverso. Tudo o que toca vira um fracasso. Talvez por isso não tenha sido incluído junto ao restante do elenco durante a divulgação do filme? Talvez seja essa maldição que tenha ocorrido para que a bilheteria total da obra não se pagasse? Nunca saberemos essas respostas, mas o fato é que a interpretação do vocalista da banda Thirty Seconds to Mars é a melhor coisa do filme.
Quando o Esqueleto está em tela, eis os melhores momentos. Apesar do personagem transparecer animosidade (um esqueleto musculoso e com um cajado mágico não te causaria medo não?), a essência do personagem sempre foi essa ideia de um ser tão maligno não combinar com a sua personalidade jocosa. As cenas em que o vilão fala com detalhes sobre o físico do protagonista são quase tão cômicas quanto na animação original.
Mestres do Universo (2026) pode até ter fracassado na bilheteria mundial, mas a chegada ao streaming pode ser a esperança de recuperar um filme que não deveria cair no esquecimento. Passa longe de ser um dos melhores do ano, mas é o exemplo perfeito de que boas histórias de fantasia continuam sendo feitas, mesmo com a mão de ferro de uma empresa de brinquedos forte por trás. Em suma, largue a desconfiança e aprecie a galhofa.
E lembrem-se crianças, “a força interior é mais poderosa do que qualquer arma".
Nota: 3,5/5





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