O silĂȘncio de Deus e a Morte em O SĂ©timo Selo
- Vitor Rocha
- 15 de abr. de 2024
- 4 min de leitura
Atualizado: 8 de jun. de 2024

O silĂȘncio de Deus Ă© um tema muito caro Ă obra do sueco Ingmar Bergman. Assim como todo grande autor, o diretor de O SĂ©timo Selo (1957) mantinha recorrentemente questĂ”es pessoais em seus filmes, e com a religiĂŁo nĂŁo era diferente. Desde cedo, Bergman sempre questionou muito Deus. Seu pai, um cristĂŁo ferrenho do qual ele sempre odiou, criou a raiz de sua rebeliĂŁo diante da divindade catĂłlica e da natureza da fĂ©, o que perdurou durante toda sua vida.
De forma pessimista, o diretor nĂŁo pensa que Deus apenas nĂŁo existe, mas que ele opta por se ausentar frente Ă s angĂșstias, questionamentos e dores da humanidade. Dessa forma, Ă© magistral o diĂĄlogo que o cineasta cria com o tema atravĂ©s de sua encarnação da morte, vivida por Bengt Ekerot em sua obra de 1957. No longa, a jornada do cavaleiro Antonius Block (Max Von Sydow) Ă© marcada pela incompreensĂŁo de Deus e a angĂșstia diante da inevitabilidade da morte. Nesse sentido, hĂĄ trĂȘs partes fundamentais: Xadrez com a Morte; A confissĂŁo; Danse Macabre.
COM SPOILER
Xadrez com a Morte
Antonius Block é um cavaleiro que estå retornando para casa após 10 anos das cruzadas. Na praia, o protagonista avista a Morte encarnada diante dele. Ela se apresenta, diz que veio buscå-lo e esteve ao seu lado faz tempo, o cavaleiro responde que o corpo estå pronto para partir, mas ele não. Em seguida, o homem propÔe um jogo de xadrez: enquanto resistir, não morre e, caso ganhe, consegue viver.
O cavaleiro das cruzadas, em meio a um perĂodo de peste bubĂŽnica, desafia a Morte enquanto busca compreender o incompreensĂvel, entender o sentido da vida e existĂȘncia atravĂ©s da racionalidade, atravĂ©s de um jogo de xadrez. No entanto, ao longo do filme, o jogo se estende por vĂĄrios dias e o cavaleiro percebe que nĂŁo hĂĄ para onde correr. Ele Ă© tomado pela angĂșstia, por nĂŁo conseguir compreender os planos divinos e questionar o silĂȘncio de Deus diante da situação. NĂŁo se ouve e nĂŁo se vĂȘ a divindade, apenas a Morte aparece diante do humano.
A confissĂŁo
Angustiado com a iminĂȘncia da morte e a falta de conforto com sua finitude, o protagonista vai para a capela confessar. Em uma das sequĂȘncias mais impactantes do filme, o personagem encara um Cristo dolorido no local. Bergman faz um plano e contraplano do rosto receoso do cavaleiro em contraste com a dor representada na escultura da crucificação. Em seguida, o homem vĂȘ uma pessoa encapuzada atrĂĄs da grade da capela e começa a confessar sua culpa.
O personagem de Max Von Sydow diz que estĂĄ preparado para morrer, mas antes quer o conhecimento, entender os planos de Deus, entender por que um ser tĂŁo poderoso vive de milagres nĂŁo vistos, como acreditar em algo quando falta fĂ©, o que acontece com as pessoas que querem acreditar, mas nĂŁo conseguem â e com as pessoas que nem mesmo querem acreditar. No final, Block se pergunta por que nĂŁo pode matar Deus dentro dele, porque Deus continua vivendo dentro dele mesmo o cavaleiro evitando isso ao mĂĄximo.
Block quer respostas, nĂŁo deduçÔes. Quer fatos, nĂŁo crenças. Deus, mais uma vez, nĂŁo estende sua mĂŁo ou revela sua face ao cavaleiro, sendo para ele apenas um Ădolo criado por medos e frustraçÔes. A Ășnica entidade que estĂĄ lĂĄ para escutar seus problemas Ă© a Morte novamente. Sem se revelar, a Morte induz o homem a revelar o porquĂȘ dele estar a enfrentando e ele dĂĄ a resposta de que quer um Ășltimo ato significativo, alĂ©m de revelar sua estratĂ©gia para derrotĂĄ-la.
Ao descobrir ter se confessado para quem o angustiava, o protagonista se indigna e a chama de trapaceira, enquanto a entidade vai embora, Ă© impossĂvel enganĂĄ-la. Ironicamente, a sua inimiga o tira momentaneamente da condição de angĂșstia e insegurança, o colocando em posição de confiança e raiva. Apesar da descrença e incompreensĂŁo em Deus, a trapaça sobre o personagem termina por ajudĂĄ-lo a superar seus questionamentos momentĂąneos, levando-o a terminar a cena com força de vontade para derrotĂĄ-la. O que vai ser quebrado ao longo dos dias de jogatina.
Danse Macabre
No decorrer do filme, o escudeiro de Antonius Block, Jöns, entra em uma igreja e se depara com uma pintura da morte dançando com vĂĄrias pessoas, chamada âDanse Macabreâ. Ele pergunta para que serve e o pintor responde que Ă© para lembrar a população de que a morte estĂĄ em todo lugar. Ambientado em um perĂodo de peste bubĂŽnica, o diretor retrata a Igreja utilizando do medo para criar um Ădolo, numa busca de manter sua influĂȘncia e poder.Â
A âDanse Macabreâ vai voltar com ainda mais força no plano final do filme, mas antes Ă© necessĂĄrio contexto. Ao longo da sua jornada com a Morte, o protagonista se junta a um grupo de artistas, junto com uma famĂlia alegre e esperançosa, o que contrasta com esse perĂodo sombrio em que o filme se passa. A atmosfera do filme se transforma Ă medida que a iluminação transita de um contraste marcante entre luz e sombra para uma luminosidade ensolarada.
Nesse momento, ao encontrar essa famĂlia, o cavaleiro tem uma rara sensação de paz, sua angĂșstia se dissipa e, por um instante, os questionamentos existenciais que o atormentaram ao longo do filme se dispersam. Ele se permite simplesmente desfrutar do momento presente e apreciar as pequenas maravilhas que o mundo oferece. O ponto do longa em que Block tem tranquilidade provĂ©m de um grupo de artistas. Esses artistas - e simbolicamente a arte - permitem ao cavaleiro enxergar e contemplar de uma forma mais poĂ©tica essa certeza que Ă© a morte.
Na sequĂȘncia final, Block consegue possibilitar o escape da famĂlia alegre que lhe deu esperança. O cavaleiro derruba as peças de xadrez e permite que a famĂlia vĂĄ embora, enquanto a Morte pensa que ele fez para ganhar tempo para si. Em uma atitude de altruĂsmo, o homem consegue o que parecia impossĂvel durante a confissĂŁo: enganar a entidade. No Ășltimo plano, a entidade leva o resto do grupo atravĂ©s de uma âDanse Macabreâ, enquanto o pai da famĂlia que fugiu recita de forma poĂ©tica a cena no horizonte. A Morte continua uma certeza, mas jĂĄ nĂŁo Ă© a mesma de antes.



