CRÍTICA | Marty Supreme não é sobre pingue-pongue
- João Moura
- 21 de jan.
- 3 min de leitura
Atualizado: 23 de jan.

Entre o caos, a agressividade e o ritmo implacável, a campanha de lançamento de Marty Supreme, do diretor Josh Safdie (Joias Brutas), já é considerada uma das maiores da história da indústria cinematográfica norte-americana. Depois de muitos "SCHWEPS", vídeo de divulgação no topo da Sphere de Las Vagas, trajes laranja neon e remix com o rapper EsDeeKid, o filme estrelado pelo mais novo protegido de Hollywood deixou claro que ainda vai fazer muito barulho.
Com um orçamento de cerca de 70 milhões de dólares – o mais caro da produtora A24 até hoje – e 27 milhões gerados em sua estreia de Natal, Timothée Chalamet (Me Chame Pelo Seu Nome, Duna) foi coroado pelo veículo Variety como o "rei da bilheteria natalina". O título vem pelos números abastados nos lançamentos de Wonka (2023) e Um Completo Desconhecido (2024), nos dois anos anteriores, ainda que não tenham efetivamente liderado nenhuma noite de estreia.
O discurso de Chalamet ao vencer a categoria de melhor ator na última edição do SAG Awards (Prêmio do Sindicato dos Atores), ressaltando sua busca incessante por grandeza, somado à persona apática assumida pelo ator nos últimos meses, revela o que pode ser uma ambiciosa estratégia de marketing, e diz muito sobre como a narrativa objetiva e avassaladora de Marty Supreme é construída.

Marty Mauser (Timothée Chalamet) é um talentoso jogador de tênis de mesa nova-iorquino em ascensão que, depois de um derrota vexatória contra um atleta japonês desconhecido, decide apostar todas as fichas – todas mesmo – no campeonato mundial seguinte, em Tóquio. A história se passa na década de 50, ambientada no pós-guerra, e é inspirada na trajetória do mesa-tenista Marty Reisman, sendo quase inteiramente ficcional.
O roteiro é acelerado e segue o ritmo agitado do protagonista. Os primeiros minutos de tela introduzem um homem jovem, confiante, persuasivo, que tem total clareza sobre seus objetivos. Ele parece saber exatamente o que está fazendo para chegar aonde quer, até que sua inconsequência gera uma avalanche.
O desapego e o tom provocador e persistente de Marty despertam o interesse de Kay Stone (Gwyneth Paltrow), uma atriz de cinema veterana amargurada que tenta reacender sua carreira no teatro às custas do marido magnata, Milton Rockwell (Kevin O'Leary). A dinâmica entre os três personagens traz uma tensão constante para a trama, além de ressaltar a atuação brilhante e sedutora de Paltrow, que estava afastada das grandes telas há alguns anos. O'Leary surpreende com uma presença firme e ameaçadora, digna de um grande empresário desprovido de empatia, e com certeza carrega muito da sua bagagem de anos no programa estadunidense Shark Tank.

Em paralelo, as condições do romance vivido por Mauser e Rachel Mizler, sua vizinha – uma interpretação madura e intensa de Odessa A'zion, que vem ganhando cada vez mais holofotes com o filme –, refletem o traço insensato e extremamente nocivo da personalidade do jogador de pingue-pongue.
Marty sempre coloca suas metas pessoais à frente de tudo e todos, disposto a defender com unhas e dentes quem acredita ser. Outra boa surpresa da produção é a performance fluida de Tyler, the Creator como Wally, amigo do protagonista que também sofre com os efeitos colaterais das ações de seu parceiro de golpe.
É uma estrutura cômica clássica. A desordem reina. Tudo dá errado para, no final das contas, tudo – ou quase – dar certo. Apesar de envolventes, as histórias não relacionadas à trama principal somam um tempo de tela muito maior, e provavelmente decepcionaram quem foi ao cinema com a intenção de assistir um filme sobre tênis de mesa.

As partidas, mesmo que pontuais na obra, são encenadas de uma forma eletrizante, com um jogo de câmera dinâmico e detalhista. A cor laranja – tão frequente na extensa campanha de divulgação –, no entanto, faz uma aparição que ensaia um desdobramento futuro, mas tem seu potencial mal explorado e jogado pela janela de uma hora para outra.
É um texto cíclico. Irônico. Uma cena intensa de sexo na primeira sequência e o fechamento com o nascimento emocionante do bebê gestado por Rachel; quando vemos Marty em seu estado mais vulnerável.
No fim, será que Marty Supreme realmente é uma história sobre foco, determinação – DREAM BIG –, como Timothée prega em seus discursos? Ou é sobre passar por cima dos outros, tomar decisões precipitadas, rir na cara do perigo e estar sempre a um fio de prejudicar a todos por perto?

É coerente dizer que Marty Mauser não passa de um moleque mimado e que, de fato, merecia umas palmadas. Mas é impossível negar sua irreverência e, sobretudo, sua consistência – ainda que seja consistente apenas em fazer merda.
Safdie deixa uma lição importante: a vida não é justa. As adversidades sempre vão existir, e algumas pessoas sempre vão conseguir o que querem. A trilha com Everybody's Gotta Learn Sometime, de Beck, foi a pitada que faltava para concluir a mensagem do diretor.
Nota: 3,5/5








Comentários