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moqueka

CRÍTICA | Chainsaw Man - Arco da Reze é a representação do amor enquanto tragédia


Chainsaw Man - Arco da Reze

A verdade é que à cada dez filmes, eu só costumo gostar de um. Mas, houve casos que esse único filme foi capaz de mudar minha vida

Eu acho extremamente simbólico essa frase da Makima acontecer bem no início de Chainsaw Man: Arco Reze. As vezes me pego pensando sobre como certas obras conseguem ter um impacto realmente impressionante em nossas vidas. Não me refiro apenas à aquelas que mudam seu modo de pensar ou te entregam um novo propósito na vida, mas até mesmo filmes que te fazem ficar pensando sobre eles mesmo após seu fim. Em meio a um trabalho que me exige ficar assistindo um monte de lixo, é genuinamente legal ver que um filme desse ano ainda consegue me fazer sentir alguma coisa. Vale mencionar que o filme é simbolicamente dividido em duas partes, sendo a primeira um "slice of life" e a segunda parte é quando começa a ação de verdade.


Na primeira parte temos o desenvolvimento de uma pergunta que já perturbava o Denji desde a primeira temporada: eu ainda sou capaz de sentir alguma coisa?. A maratona de filmes com a Makima serve para mostrar que, apesar de notavelmente não ter emoções como as de um humano qualquer, ele ainda é capaz de nutrir sentimentos.


Chainsaw Man - Arco da Reze

Apesar disso parecer óbvio, Denji só acredita que possui um coração depois que a garota que ele gosta diz isso, como se ele precisasse da confirmação de alguém exterior para ter certeza que é capaz de sentir alguma coisa. É em meio à isso que surge Reze, uma garota que também prova para Denji que ele é capaz de sentir — só que, diferente de Makima que faz isso por meio de palavras, Reze faz por meio de atitudes.


É interessante os paralelos que existem entre a relação de Makima e Denji x Reze e Denji. Desde que conheceu Denji, Makima o mantém sob controle (sacaram?) por meio daquilo que ela pode oferecer. Um teto para morar, comida boa para comer e até mesmo um peito para apertar. O sentimento que Denji nutre por Makima é algo que foi forjado, manipulado por ela desde o primeiro encontro entre os dois.


Me pergunto o porquê não te matei na primeira vez que eu te vi. Ah, Denjinho... eu menti. Eu também não fui a escola.

Reze surge como uma força antagônica a Makima. Diferente de Makima, que enxerga todos como cães, Reze enxerga Denji como um igual, alguém que passou por coisas parecidas, alguém com quem ela pode, mesmo que por pouco tempo, ser uma pessoa normal e não uma arma do governo. Reze não "compra" Denji oferecendo coisas boas, mas o conquista com aquilo que viveram juntos. Embora no final ela afirme que estava enganado o protagonista, fica óbvio que realmente nasceu um sentimento genuíno entre os dois.


Chainsaw Man - Arco da Reze

É então que acontece a cena da piscina. Simplesmente o momento mais lindo desse filme e que sintetiza bem a relação entre os dois. O protagonista encara um dilema: ser fiel ao "amor" que sente por Makima ou viver o presente com Reze. Como mencionei anteriormente, o "amor" por Makima é algo artificial, forjado, controlado. E nada que é falso consegue resistir quando um amor genuíno aparece. Denji explica que seu corpo estava agindo por conta própria, o que deixa claro que ele estava experimentando pela primeira vez a sensação do amor verdadeiro.


Acho muito legal como o diretor Tatsuya Yoshihara trabalha diversos simbolismos visuais durante essa sequência inteira, como a flor que perde sua pétala ou a borboleta que é pega na teia da aranha. No fim, mesmo que aquele momento fosse apenas parte de um plano maior, ainda existia um fundo de verdade. Quando o Denji diz que "apesar de tudo, Reze ainda o ensinou a nadar de verdade", significa que, mesmo com suas mentiras, Reze ainda o fez amar de verdade.


Além da excelente direção de Tatsuya, outro fator que torna essa cena da piscina tão bonita é a música. In The Pool parece carregar a lembrança daquilo que nunca se viveu — ou daquilo que se viveu há tanto tempo que nem parece realmente ter acontecido. É a ideia de um sonho que se converte em música, sendo algo delicado e de curta duração, ou seja, a perfeita definição do relacionamento de Denji e Reze. Mas, mesmo que ainda curtos, esses momentos não deixam de ser carregados por muita beleza, não é?


Chainsaw Man - Arco da Reze

Esse uso espetacular da trilha sonora também pode ser visto em outros momentos do filme, como na cena da perseguição, em que a música do carro se torna a trilha sonora do filme. Esse carinho na montagem sonora trouxe todo um charme a mais para o filme.


Na segunda parte do filme é quando o longa se entrega ao gênero "anime de lutinha" por completo e começa uma sucessão de momentos "massa veio". Sinceramente, não consigo evitar de pensar que essa segunda metade é mais pobre de conteúdo do que a primeira, mas ainda assim ela carrega alguma substância. A começar pela quebra do "sonho" que Denji estava vivendo com Reze.


O protagonista estava no ápice de seu relacionamento, tudo parecia estar perfeito, quando de repente tanto o público quanto o próprio herói são surpreendidos pela revelação do Demônio da Bomba. É como se fôssemos lembrados do que Chainsaw Man se trata: esse não é um mundo em que finais felizes acontecem. Todas aquelas sequências românticas são substituídas por uma violência extrema e que, em certo nível, parece até ser sem sentido.


Chainsaw Man - Arco da Reze

A direção de Tatsuya Yoshihara brilha mais uma vez aqui. Em vez de apenas fazer sequências de ação bem animadas como outros animes do gênero, o diretor explora algumas experimentações visuais. Essas experimentações servem, inclusive, para adaptar algumas capas dos volumes do mangá, o que demonstra uma enorme criatividade por parte do diretor na hora de fazer esse trabalho de diálogo entre as duas mídias.


Uma coisa que não pude deixar de notar é o uso excessivo de impact frames desde que a Reze se revela como o Demônio das Bombas. Achei essa escolha visual bem instigante, fazendo até parecer que as duas metades do longa são obras completamente diferentes — além de trazer uma dramaticidade maior para as explosões. Além de tudo isso, em meio às sequências de ação ainda existe um curto espaço para o desenvolvimento dramático de certos personagens, como a relação do Aki com o Anjo. Isso tudo faz com que, mesmo sendo um monte de porradaria non-sense, essa segunda parte não prejudica o filme em seu todo.


Durante o final, retomamos a mesma roupagem que tínhamos no início. É como um ciclo que chega ao seu fim, porém, em vez de recomeçamos o sonho outra vez, surge Makima para dar um fim à aquilo tudo. Quando a personagem resgata o conto do rato da cidade e o rato do campo, ela basicamente resume a vida de todos que estavam envolvidos na história.


Chainsaw Man - Arco da Reze

Makima diz preferir o rato do campo porque ela é a própria personificação da cidade. Ela atrai os ratos do campo e os manipulam para se tornarem ratos da cidade, impregnando neles a crença de que o único modo de viver é arriscando suas vidas constantemente. Foi assim com Aki, foi assim com o Anjo e foi assim com Denji. Em contrapartida, Reze diz que prefere A VIDA do rato do campo e não o próprio rato em si. A personagem não via problemas em viver com pouco, contato que tivesse uma vida tranquila e feliz. É por isso que ela está constantemente pensando em fugir para longe com o protagonista. Infelizmente, Denji já estava cego pelas mentiras da cidade.


Nota: 4/5



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