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CRÍTICA | Song Sung Blue é uma história bonita contada de forma genérica


Escolha um ícone da música, conte sua história de ascensão na fama, grave tudo da forma mais previsível possível e voilá, você acaba de produzir mais uma cinebiografia de sucesso em Hollywood. Não é mais novidade para ninguém que o universo das biografias cinematográficas se encontra em um estado de saturação. Entra ano e sai ano, o mesmo filme repetido, com a única mudança sendo o personagem principal.


De vez em quando, surge alguém tentando fazer algo diferente nesse subgênero. Claro, a maioria dos elementos comuns a uma cinebiografia ainda continuam, mas uma ou outra característica acaba sendo alterada com o intuito de conseguir um pouco mais de personalidade para o filme. No caso de Song Sung Blue, que chega hoje aos cinemas, o diferencial está nos próprios protagonistas. 


Apesar de preservar a mesma estrutura narrativa, o longa dirigido por Craig Brewer se destaca ao contar a trajetória de duas pessoas que não se tornaram grandes ícones da fama. O longa acompanha a história de amor e tragédia do casal Mike e Claire Sardina, dois músicos azarados que ficariam conhecidos como a dupla Lightning and Thunder. Em vez de emplacar hits autorais, o duo ganhou o coração de muitos norte-americanos com covers das canções de Neil Diamond.


Song Sung Blue Hugh Jackman

É muito provável que, antes do lançamento do filme, você nunca tenha escutado o nome dos dois. Isso porque os personagens não são um exemplo de ícone da indústria musical. Sua fama era, principalmente, entre o público mais velho e que gostava de karaokê. A vida de Mike e Claire ganhou mais projeção em 2008, quando o diretor Greg Kohs lançou o documentário que leva o mesmo nome do filme.


Acredito que a principal diferença entre um filme e um documentário é a liberdade artística que um longa possibilita a seu realizador, algo que a linguagem documental essencialmente não é capaz. Não faz sentido produzir um filme de alguém que já possui um documentário se o seu intuito, enquanto diretor, não é explorar essas possibilidades visuais existentes em um longa. Além de pegar o nome emprestado, o cineasta Craig Brewer se apropria da linguagem utilizada por Greg Kohs em seu documentário.


O novo Song Sung Blue não se importa em gravar as coisas de uma forma mais inventiva, em se aventurar nos limiares da linguagem fílmica, mostrar outra perspectiva sobre aqueles acontecimentos. Brewer se contenta com o básico, filmando aquela história como qualquer outra cinebiografia feita antes dele. Quando uma das personagens principais está vivendo um delírio em tela é o único momento em que o realizador parece tentar fazer algo menos protocolar, menos engessado, mas ainda assim não é um grande esforço.


Song Sung Blue

Apesar de ser visualmente comum e abusar dos mesmos tropos do subgênero, Song Sung Blue escapa de ser um fiasco por conta da potência que existe em seu pilar principal. A história de Mike e Claire é algo realmente digno de filme, principalmente pela forma como o amor deles foi arrebatador. A trama segue a mesma estrutura de ascensão, queda e ressurgimento presente em todos os filmes do segmento, mas ainda assim é algo bonito de se acompanhar.


O primeiro terço do filme é uma experiência cheia de ternura, sendo extremamente fácil se cativar pelo casal principal. Apesar das coisas entre os dois acontecerem um tanto quanto rápidas, o público sente que naquele amor existe algo genuíno. Mike e Claire são claramente pessoas solitárias e que buscam uma vida regada por música, sendo duas almas que pareciam destinadas ao seu encontro. 


No segundo terço é quando as coisas começam a desandar. É comum que histórias desse tipo tenham um momento em que as coisas dão errado, porém, Craig Brewer parece não saber conduzir muito bem essa sequência. Quando o casal começa a entrar em conflito, as coisas parecem não fazer sentido, o drama não convence, e é como se o filme não conseguisse explorar a tensão existente naquilo que os dois estavam vivendo.


Song Sung Blue documentário

Por conta dessa incapacidade em construir o segundo ato de forma coerente, a finalização do longa também acaba sendo um pouco prejudicada. Você não obtém a sensação de recompensa que normalmente é esperada nesse tipo de filme — justamente porque o segundo ato da produção não foi desenvolvido de forma convincente. Apesar disso, ainda é algo bonito ver o casal finalmente realizando seu grande sonho.


Apesar do elenco secundário entregar performances aceitáveis, o destaque fica no casal principal. Hugh Jackman demonstra que a experiência dele com músicas, obtida em O Rei do Show, ainda está em dia. O ator interpreta um ex-alcoólatra cheio de carisma e com um sonho cativante. Mike, por muitas vezes, é o grande coração daquela família e o responsável por deixar tudo de pé.


Quando a lista de indicados ao Oscar foi publicada, confesso ter me sentido surpreso ao ver o nome de Kate Hudson entre as indicadas a Melhor Atriz. Não é que a performance dela seja ruim, pelo contrário, a atriz consegue ser competente naquilo que o longa pede. Entretanto, não é o tipo de atuação que você considera ser digna de Oscar ou algo assim. Apesar disso, a personagem é a grande responsável pelo drama da produção, sendo o ponto central dos momentos mais difíceis da história.


Kate Hudson Oscar

Craig Brewer, que dirigiu o remake de Footloose em 2012, entrega cenas musicais bem mornas. Não é que os momentos não sejam bonitos, mas também não se diferenciam muito de outras cinebiografias. Se você está esperando algo como Better Man ou Elvis, pode esquecer. Eu diria que o longa de Brewer está mais próximo de Um Completo Desconhecido, só que sem um personagem contraditório e instigante como era Bob Dylan.


Song Sung Blue é uma linda história de amor e com boas doses de drama, mas conduzida da forma mais previsível possível. Caso seja o primeiro filme do gênero que você esteja assistindo, talvez essa experiência realmente seja algo marcante. Se não for esse o caso, você provavelmente só vai achar um filme “okay”. Uma experiência doce e cativante, mas que sofre por ser genérica e completamente esquecível.


NOTA: 3/5



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