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O Glorioso Technicolor


Ao assistir a um filme bem antigo, você com certeza já notou letras garrafais na abertura que lêem “Technicolor”. Se reconhece esse nome, talvez tenha percebido um padrão em comum com filmes desse selo: uso das cores num aspecto bem saturado, que parece planificado e vivo, como uma tela. E, bem, é quase isso mesmo! 


Mas calma lá: não é como se o Technicolor fosse uma técnica na qual os frames fossem pintados à mão, um por um. Uma das técnicas próximas de algo tão manual, contudo, seria o que temos registrado como Pathécolor. Esse que, por sua vez, utilizava um sistema de montagem no qual os frames eram recortados por meio de um stencil, que nada mais é que uma técnica na qual utilizam-se de moldes vazados, garantido a precisão, e assim as cores eram aplicadas. 


Linha de produção do Pathécolor. Via The Bioscope.
Sistema Pathécolor. Via The Bioscope.

As coisas começaram a mudar quando concluíram que o método mais fácil para a colorização seria se as cores fossem captadas no momento da filmagem – e, a partir daí, foram surgindo aplicações com diferentes tipos de filmes. Inicialmente, coloria-se somente com verde e vermelho, que acabavam por reproduzir bem alguns tons de pele, mas não matizes de azul ou amarelo – a esta técnica é dado o nome de Kinemacolor, idealizada por George Albert Smith, e é considerada o primeiro êxito do processo de colorização, marcado pelo curta A Visit to The Seaside (1908). 


A Visit To The Seaside. Imagem: Reprodução

Um pouco menos de uma década depois, surgia então a empresa americana Technicolor, batizada com o “Tech” inspirada no MIT, o Instituto de Tecnologia de Massachusetts, onde Herbert Kalmus e Daniel Frost Comstock, seus fundadores, receberam seus diplomas de graduação. A empresa, que seria agora tanto uma empresa quanto um novo modo de produção, também começou trabalhando com o sistema de dois filtros, verde e vermelho, até evoluir e refinar a técnica para o que, sem dúvidas, mudou para sempre a forma como consumimos a sétima arte. 


Mas como funcionava o Technicolor? Enquanto o método que o antecedeu utilizava de duas imagens em duas cores simultâneas, o Technicolor era bem mais engenhoso e necessitava de negativos triplos em ciano, magenta e amarelo para realizar o efeito de cor. O resultado era de cenários com alta saturação, contraste de cores, e com uma modelagem um tanto plana, quase mágica – não é à toa, inclusive, que o filme O Mágico de Oz (1939) foi responsável por popularizar a técnica naquele período, apesar de não ter sido o seu precursor. O momento em que Dorothy abre a porta e percebe que não está no cenário monocromático do Kansas, simbolicamente também leva o mundo inteiro consigo em um universo colorido. 


Dorothy chegando em Oz. Imagem: Reprodução 

O Technicolor nunca foi um processo fácil. Foram pelo menos quatro décadas de esforço e desenvolvimento que custaram aos cineastas a chegarem no resultado vibrante dessa técnica. Hoje, podemos transformar o tom de nossas fotos e vídeos com algumas rolagens em gráficos e em poucos cliques, e, para o cinema, há uma gama gigantesca de recursos que ajudam o diretor a contar a sua história do jeito que considera mais estéticamente plausível. Não podemos negar, contudo, que ao observar lançamentos atuais, há uma tendência à paletas frias, sombrias, e que apelam a um suposto realismo (como se o mundo fosse, de fato, menos colorido), então chegamos a pensar: desde quando os filmes se tornaram tão sem-graça? 


Não me entendam mal: não que produções recentes também não sejam regadas de criatividade, um uso inteligente de cores ou vivacidade. E não, também, que todos os filmes em Technicolor foram marcados pelo uso inconsequente de cores berrantes – não mesmo! Assim como existe uma direção de fotografia hoje em dia, filmes antigos também contavam com uma direção de cores minuciosa, que transformava a ambientalização daquelas obras. Clássicos como “Bonequinha de Luxo” (1961) e até mesmo “Festim Diabólico” (1948), trazem a sutileza em tons acastanhados e frios, respectivamente, mas não perdem o charme digno do selo Technicolor – e são assim, justamente, porque suas paletas são condizentes com o seu enredo. 


Bonequinha de Luxo. Imagem: Reprodução
Festim Diabólico. Imagem: Reprodução

É diferente, no entanto, de obras atuais que poderiam (e deveriam) ousar com a utilização de nuances mais coloridas, cenários mais iluminados ou brilhantes, mas pendem à um padrão no qual reinam cores neutras, paletas monocromáticas, contraste baixos e uma utilização bem precária da luz – este último, sobretudo, em séries como Game of Thrones ou House of the Dragon, quase impossíveis de se assistir na luz do dia. 


Vejam bem que não é sobre excessos: mesmo um filme que seja “exagerado” esteticamente, como Tudo em Todo Lugar Ao Mesmo Tempo (2022), possui uma saturação baixa; Mesmo um filme com uma temática lúdica, com musical e peixes falantes, torna a parecer como num dia nublado, em A Pequena Sereia (2023). E, não menos importante, mesmo em universos cinematográficos baseados em histórias em quadrinhos (autoexplicativo), também há uma normalização de matizes neutras e escalas acinzentadas – e não, isso não é uma crítica ao Zack Snyder, tampouco, uma crítica às escolhas estéticas que fazem com que as histórias sejam recebidas de determinada maneira, mas sim, um olhar para uma tendência que parece aproximar a ausência do colorismo ao que é mais maduro ou realista. O que é um tantinho preocupante. 


Nossa geração não é antiga o suficiente ao ponto de ter acompanhado a evolução do cinema em cores, mas, acompanhou (e continua acompanhando) a evolução do uso da tecnologia para a criação e reprodução de novas texturas, de objetos inimagináveis, transformação da dimensão do que vemos para algo fantástico ou até mais condizente com a realidade. Ainda assim, um outro exemplo triste, dessa vez, seria a da adaptação cinematográfica de Wicked (2024). Apesar de ainda não ter sido lançada, já conseguimos concluir através do trailer que o filme também possuirá uma paleta um tanto empoeirada, em discrepância com a Oz brilhante do filme de 1939. 

Wicked. Imagem: Reprodução
O Mágico de Oz. Imagem: Reprodução

Com tanta tecnologia disponível, contudo, porque não tentar reproduzir novamente o que foi o glorioso Technicolor? Bom, quando eu comecei a ler e pesquisar sobre, a maioria das respostas eram que, atualmente, a técnica era “virtualmente impossível” de ser reproduzida. É fato que, ao longo dos anos e com o advento do mundo digital, o Technicolor caiu em desuso. E suas justificativas eram um tanto plausíveis para um mercado que crescia, e consequentemente, fazia com que os produtores utilizassem equipamentos menos custosos para continuar com a nova cultura de consumo. 


Como dito anteriormente, as câmeras para filmagem em Technicolor eram bem grandes e pesadas, porque contavam com mais de três filmes simultâneos. O aparelho ficava muito quente e fazia muito barulho (imagine seu Lenovo básico tentando rodar o The Sims 4, por exemplo), o que atrapalhava na hora da filmagem também. Além do mais, os processos químicos que tratavam os filmes e as lentes das câmeras também não faziam bem para o meio ambiente, além de serem de difícil preservação. Um dos últimos filmes a utilizarem da técnica, inclusive, foi O Poderoso Chefão parte II (1975).  


Pessoalmente, não acredito em nada que foi bom antes que não possa ser recriado hoje em dia com a infinidade de recursos que outrora não estavam disponíveis. E não é, também, como se os cineastas não tivessem tentado reproduzir o Technicolor em produções atuais. Damian Chazelle com La La Land (2016) e Ti West em Pearl (2022), mostraram que é sim possível fazer um bom trabalho de cor, sombra e profundidade que seja atual, mas que fazem ode ao clássico. E eu espero que esse apelo ao nostálgico, que perdura na tendência, também seja responsável pelo retorno de filmes visualmente divertidos. 

La La Land. Imagem: Reprodução
Pearl. Imagem: Reprodução

Como artista, temo pela ausência de ousadia dos novos cineastas em brincarem com cores e texturas. Como futura produtora cultural, temo que esse seja um dos caminhos para agradar um público de nicho que tende a crescer; E, como fã e consumidora, me resta aceitar e confiar no que vem por aí. 


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