top of page
moqueka

A visão feminina no cinema pioneiro de Alice Guy-Blaché

Alice Guy-Blaché
Arte por Rafael Vaccaro Madrid

Em meados do infame século XIX, ninguém era capaz de prever que, no coração da Europa, começavam as movimentações iniciais do surgimento de uma nova arte. Uma arte que faria explodir “esse universo carcerário com a dinamite dos seus décimos de segundo, permitindo-nos empreender viagens aventurosas entre as ruínas arremessadas à distância”, como nos disse Walter Benjamin; uma arte que não apenas revolucionaria o modo como interagimos com todas as outras artes, mas também uma que mudaria para sempre o modo de viver humano. Falo, é claro, do cinema.


É nesse período histórico em que nasce a cineasta Alice Guy-Blaché, numa pequena comuna da França. Diretora, roteirista, produtora e atriz — essas são as principais ocupações atribuídas a esta que foi uma grande pioneira no saber-fazer do cinema. Como aponta Maritza dos Santos, Blaché teve sua contribuição artística apagada durante muitos anos nos cânones dos manuais técnicos e pretensos livros de “história global” do cinema, o que pode ter contribuído para a construção cinematográfica de uma predominância criativa masculina dentro da sétima arte. Passemos, então, por algumas de suas obras mais marcantes, numa tentativa de visibilizar, enfim, o trabalho dessa cineasta que tanto marcou a efervescência inicial dos primeiros anos do cinema — sendo amplamente considerada a primeira diretora mulher da história.


Primeiros passos


Franthiesco Ballerini, em História do Cinema Mundial, aponta como A Fada dos Repolhos (1900) teria sido “o primeiro filme roteirizado do mundo”; esta é uma narrativa frequentemente repetida em sites populares de cinema. Porém, ao aprofundar-nos na pesquisa acadêmica, notamos que, de fato, não há um consenso para tal marco, como muito bem aponta Maritza dos Santos em uma dissertação que questiona, inclusive, a própria data de confecção do curta-metragem em si. Essa é uma história muito engraçada, inclusive, já que uma boa parte dos pesquisadores da história do cinema considera que Blaché teria tido um lapso de memória responsável por trocar a data de produção do filme de 1900 para 1896.



De qualquer modo, a própria cineasta considera o curta-metragem como sua primeira produção — algo curioso, uma vez que este retrata o nascimento de duas crianças que engendram-se em folhas de repolhos, algo parecido com a lenda infantil que retrata cegonhas como as progenitoras dos bebês. Nascia, ao lado destas crianças, um nome pioneiro que marcaria o início da história das mulheres na prática cinematográfica.


Consolidação e estilo próprio


Ao passo em que prosseguia seus experimentos de imagem-movimento, Blaché passava, aos poucos, a construir um estilo próprio. No ano de 1906, a diretora produziu e exibiu importantes filmes para a consolidação do seu senso estético-narrativo: o primeiro deles foi O Nascimento, a Vida e a Morte de Cristo, um média-metragem que retrata a vida de Jesus a partir de versículos bíblicos do Novo Testamento, mas de uma maneira não limitada à pastoral cristã. Richard Abel nota que, na construção melodramática da vida do messias cristão, o filme insiste repetidamente em privilegiar as mulheres em suas relações com Jesus — uma visão feminina que se repetiria, também, em Madame a des envies (Os desejos de Madame).



No curta, Blaché retrata uma grávida à moda flâneur, ou seja, uma mulher grávida que perambula pelas ruas de Paris à procura de satisfazer seus desejos mais profundos, sempre pela via da oralidade — para tal, dispõe de pirulitos, charutos, doses de absinto… e, ao realizar (ou circundar) seus desejos, a câmera procura a qualquer custo centralizar a heroína em questão em primeiro plano. Não é exagero dizer que, neste filme, Alice Guy-Blaché unifica suas convicções estéticas em um só tema: o desejo feminino, este que, até então, pouco (ou jamais) havia sido representado sob uma ótica não-masculina no cinema. Não interessa o aspecto fálico dos objetos parciais da Madame; tampouco importa o teor freudiano do curta-metragem. Isto porque o movimento de Blaché de centralizar a vontade feminina na tela do cinema não parece, sob nenhum aspecto, inconsciente. Prova disso é o seu último empreendimento do ano de 1906: Les Résultats du féminisme (As Consequências do Feminismo).



Este é, quiçá, o mais conhecido filme da diretora nos dias atuais. A premissa é simples: tratam-se de diversas sequências em que as expressões tradicionais de gênero são “invertidas”. Homens são submissos, afeminados, enfeitam-se com flores, cuidam da casa… enquanto as mulheres vão ao bar, fumam, bebem e flertam. Tudo acaba, porém, com a revolta masculina diante do matriarcado — e tudo volta a funcionar “do jeito certo”, isto é, o patriarcado volta a impor-se como dado e natural. O que a cineasta pretende fazer é expor o quão ridícula é a performance de gênero — esta que, como expôs Judith Butler muitos anos depois, não é um mero efeito do gênero, mas é o próprio gênero —, lançando mão de uma inversão de papeis que em nada suavizam sua mensagem. Pior: essa inversão só acentua a potência do filme, que torna-se, passado um século, um verdadeiro manifesto anti-gênero.

 

Anos finais: uma história (muito) mal contada


Alice Guy-Blaché
Alice Guy-Blaché / Reprodução: Förderverein Filmkultur Bonn e.V.

No final da década de 1940, Alice Guy-Blaché escreveu uma autobiografia que só seria publicada postumamente no ano de 1976. A diretora nutria, com o passar dos anos, uma justificada preocupação acerca do completo apagamento do seu nome nos livros que pretendiam contar uma história “mundial” do cinema — hoje, sabemos que boa parte do que pretende-se universal é tão somente masculino, europeu e branco —, o que nos leva a um importante questionamento: seria este apagamento fruto de um natural desgaste de um cinema embrionário (tendo em vista que boa parte dos filmes produzidos não apenas por Blaché, mas por diversos de seus contemporâneos estão perdidos até hoje) ou, ainda, de um desinteresse público e acadêmico acerca do cinema da única mulher que se tem registro a fazer filmes no período pré-industrial da sétima arte?


Estas perguntas não pretendem ser respondidas, uma vez que ambas as proposições podem coexistir tranquilamente, sem interferências. É espantoso, porém, como pouco se falou — e ainda pouco se fala — de Alice Guy-Blaché não apenas nos meios públicos, mas também na própria cinefilia. Hoje, a diretora pioneira conquista cada vez mais espaço no debate cinematográfico, mas ainda há muito a ser feito: o female gaze de Blaché prova-nos que a história constrói-se não apenas na via da hegemonia, mas que, para toda forma de dominação de poder discursivo, há manifestações de resistência. Até mesmo no olho do furacão: na (pré) indústria de cinema do início do século XX.


Comentários


bottom of page