CRÍTICA | Resident Evil é uma boa adaptação?

“Excelente filme, péssima adaptação”. A discussão não surgiu no tweet que continha essas exatas palavras, mas foi um símbolo de um momento em que obras baseadas em um material já existente encontram resistência de seus supostos fãs em consumir um novo material que não adapte exatamente o que já foi visto antes. Dentro desse contexto, o novo Resident Evil (2026) chega aos cinemas brasileiros como um exemplo de que é preciso continuar dando liberdade para os artistas seguirem fazendo arte.
Resident Evil é uma franquia de jogos criada pela Capcom que consiste em histórias de pessoas sobrevivendo em ambientes inóspitos e infestados por vírus, zumbis, parasitas e outras criaturas bizarras. Tem até mesmo dragões em títulos mais recentes (para você entender como existe uma diversidade de monstros nos jogos). O sucesso da série rendeu sete filmes para as telonas e outras seis animações.
Agora em 2026, o diretor Zach Cregger assumiu um projeto que busca distância do material original em relação aos personagens mais conhecidos da franquia. O longa conta a história de Bryan (Austin Abrams), um entregador médico que precisa levar uma encomenda ao Hospital Geral de Raccoon City em uma noite de neve.

O protagonista, homem comum e que não tem nenhuma noção de como usar uma arma, cai dentro desse mundo apocalíptico e precisa se virar para sobreviver sozinho nesse fim de mundo. Esqueça Leon e me diga, tem coisa mais Resident Evil do que isso? Pois é, o cerne da franquia é respeitado. Não só pelo conceito da história, mas pelo ótimo trabalho de transposição dos elementos de gameplay.
Bryan como personagem é pouco desenvolvido, mas isso não chega a diminuir a experiência, já que é difícil explorar mais dessa pessoa em um contexto que está sozinho e desesperado para sobreviver. No entanto, existe uma temática de paternidade que é trabalhada em sua história ao mesmo tempo em que ele cresce como o “herói”. Mas, novamente, é apenas um homem comum vivendo no inferno.
O posicionamento da câmera simula uma jogatina em terceira pessoa. Em outros momentos, objetos de interesse são focados quase como se tivéssemos posicionando o direcional para pegar um item. Isso sem contar na mudança para a primeira pessoa, o que potencializa a tensão das cenas em que Bryan está concentrado em não ser surpreendido por um monstro.

Tudo isso faz parte do ótimo trabalho de ambientação do filme. Mas não é só isso, já que a direção de arte usa o espaço para criar planos memoráveis, principalmente com o uso de cores bem marcadas e um bom uso das sombras, o que já não é novidade nos filmes de Cregger.
Confesso não gostar de Barbarian (2022) e Weapons (2025) na mesma intensidade que as pessoas parecem gostar, mas Resident Evil é claramente superior aos outros dois justamente pela existência deles. É perceptível a evolução do diretor ao longo de sua filmografia e também a reciclagem do que já havia dado certo anteriormente.
Um aspecto que deve incomodar muita gente é a mistura entre o terror e o humor. O filme conta com muitos momentos cômicos. A minoria são piadas engraçadinhas estilo filme de sessão da tarde, enquanto a maior parte dessas cenas são situações que levam ao riso, principalmente de nervoso. Entendo quem possa não se identificar com essa marca do diretor, mas o recurso funciona.
Isso NÃO é Resident Evil?

Voltando ao tópico das adaptações, esse é um tema que sempre esteve em discussão desde o início do cinema. Talvez até mesmo antes disso com as peças de teatro, mas não tenho propriedade de fala. A questão é que toda mídia tem suas características intrínsecas para funcionar, o que não significa que sejam necessárias quando há a transposição para uma mídia diferente.
No caso de Resident Evil, nem os fãs entram em consenso sobre o problema dessa nova adaptação. Falam que só tem o nome da franquia, choram pela falta dos personagens conhecidos, pela falta de monstros clássicos e até mesmo mentem dizendo que o novo filme não respeita as regras impostas pelo universo… dos games.
Eu entendo se o motivo para não gostar do longa seja por uma expectativa de querer vivenciar novamente a história dos jogos, mas isso não é um problema do filme em si e sim da sua expectativa sobre aquela obra. “Excelente filme, péssima adaptação”. Então é um excelente filme, ponto. Queremos criar regras sobre o que os outros devem fazer, mas o certo é entender o que a obra se propõe e criticá-la pelo que ela é, não pelo que ela poderia ser.
Esse fenômeno não está acontecendo somente com os gamers, mas também estão existindo críticas direcionadas à série Lanternas, do universo DC, e ao próximo filme de Nárnia. Esse, até a data de publicação do texto, só teve três imagens divulgadas. E o argumento é o mesmo nas três ocasiões.

Além da transposição dos elementos de gameplay para funcionarem nas telonas, o clima de survival horror tão característico de Resident Evil reside no filme o tempo todo, principalmente pelas ameaças vistas em Raccoon City. Tem casa abandonada, tem animais mutantes, zumbis bizarros que perseguem o protagonista, esgoto e até a Umbrella Corporation.
O final do filme pode dividir opiniões e isso já era de se esperar de um diretor que terminou os seus últimos dois longas de forma “intensa”. Dentre os diversos momentos em que o telespectador tem seu sentimento manipulado a sentir raiva dos personagens, esse é o caso do final. Poderia até ser forçado se ele não seguisse à risca a regra de Cregger para sua obra. “O que aconteceria se uma pessoa normal caísse nesse mundo?”. Bom, está lá a resposta.
Em suma, Resident Evil (2026) é um exemplo perfeito de como seguir a liberdade artística de um autor pode dar origem a uma nova história que segue o cerne do material original sem se limitar pelo que já foi feito antes. No melhor filme de sua curta carreira, Zach Cregger cria uma ambientação de tensão ao mesmo tempo que consegue inserir humor físico em uma narrativa digna de se passar no universo dos jogos.
Nota: 4/5





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