top of page
LOGOTIPO_MOQUEKA_31.png

CRÍTICA | Honestino é a força da memória em um resgate histórico e poético

 Honestino é a força da memória em um resgate histórico e poético

Mais um documentário que retrata a ditadura militar no Brasil chega às telas, provando que a nossa história continua a ser uma fonte inesgotável de novas perspectivas. Por mais que o contexto seja familiar, o audiovisual nacional revela que existem milhares de trajetórias singulares, cada uma trazendo diferentes ideologias, visões e inquietações. Honestino insere-se perfeitamente nessa vertente ao conectar o passado ao presente e ao futuro, guiando o espectador por meio das lembranças deixadas pelo protagonista, das histórias compartilhadas e das dúvidas que ainda pairam no ar.


Em tempos em que a memória nacional frequentemente flerta com o esquecimento, a obra do diretor Aurélio Michiles surge como um respiro necessário e, ao mesmo tempo, um choque de realidade. Ao optar pela linguagem híbrida que mescla documentário e ficção, o cineasta reconstrói a trajetória de Honestino Guimarães não apenas como o icônico líder estudantil da geração de 1968, mas como um jovem cujos ideais foram brutalmente interrompidos pelo Estado.


Durante às quase 1h30 de filme, é nítido como os trabalhos de direção e roteiro conseguem trazer uma dinâmica interessante para contar sobre o passado das lutas dos estudantes em uma época tão sombria e marcada por sumiços, mortes e a tortura.


O grande acerto do documentário reside em sua costura narrativa. Em vez de entregar uma cinebiografia convencional, Aurélio Michiles ancora a emoção do espectador no que é real e palpável, ou seja, nas cartas, nos poemas e nas imagens de arquivo deixados por Honestino, o que faz a obra tomar forma.


Esse material, trançado aos depoimentos de familiares, amigos e figuras de peso como Almino Afonso, Jorge Bodanzky e Franklin Martins, confere à produção uma dimensão íntima. A sensação não é a de assistir a uma aula de história distante, mas de compartilhar do luto e da saudade de quem conviveu com o ex-presidente da UNE e aluno da Universidade de Brasília (UnB).


No centro dessa estrutura está Bruno Gagliasso, que assume o peso de dar rosto e voz ao líder nas sequências dramatizadas. Gagliasso consegue traduzir a urgência, a coragem e a angústia de um jovem que, após ser preso cinco vezes por sua militância, foi engolido pelos porões da ditadura militar em 1973, aos 26 anos. A performance do ator serve como o eixo emocional que liga os relatos do passado à tragédia do desaparecimento, sublinhando o vazio angustiante de uma família e de um país que nunca puderam enterrar seus restos mortais.

Honestino 2026
Reprodução/Pandora Filmes

Mais do que um simples resgate histórico, o documentário se consolida como um exercício coletivo de lembrança. A obra transcende a tela para se tornar uma homenagem e um alerta, dialogando diretamente não apenas com os sobreviventes do regime, mas com as novas gerações.


É um cinema feito de ausências, mas que, paradoxalmente, torna a presença de Honestino Guimarães e a importância da democracia mais vivas do que nunca. Em seu veredito, Honestino consolida-se como uma obra que acerta em cheio ao fugir do formato convencional de cinebiografia, adotando uma dinâmica narrativa profundamente poética e envolvente.


Em seu veredito, Honestino consolida-se como uma obra que acerta em cheio ao fugir do formato convencional de cinebiografia, adotando uma dinâmica narrativa profundamente poética e envolvente. O roteiro brilha ao utilizar de forma inteligente e sensível os materiais íntimos deixados pelo próprio militante — como suas cartas, poemas e imagens de arquivo.


Essa escolha afasta o documentário da frieza de uma simples aula de história e constrói uma ponte direta com a emoção do espectador, transformando a memória do luto e das lutas da época em algo muito mais tátil e intimista.


Bruno Gagliasso, que assume a responsabilidade de dar rosto e voz ao líder estudantil nas sequências dramatizadas, entrega uma performance que traduz a urgência, a coragem e a angústia de um jovem lutando por seus ideais em meio à repressão brutal do Estado.


Ao equilibrar essa força dramática com os registros documentais reais, o filme não apenas resgata a trajetória de Honestino Guimarães, mas se ergue como um exercício essencial e vivo sobre o valor inestimável da memória e da democracia para as novas gerações. Nota: 3,5/5


Comentários


bottom of page