(500) Dias com Ela, Obsessão e o perigo do falso amor
- João Moura
- 22 de jun.
- 5 min de leitura
CONTÉM SPOILERS

Este seria só mais um ensaio batido sobre a grande obra-mor dos nice guys, "(500) Dias com Ela", se "Obsessão" não tivesse me atingido como um tapa na cara no último fim de semana. Postas em paralelo, as duas produções podem ser consideradas verdadeiros fenômenos, tanto pelo impacto cultural quanto pelo sucesso de bilheteria.
Não são histórias exatamente parecidas – nem precisam ser –, mas ambas acendem um alerta para como lidamos com relacionamentos amorosos nos dias de hoje e, mais do que isso, para o que nunca deveria ter sido normalizado.
O ESPELHO
O ano de 2009 é o penúltimo de um ciclo geracional que chamamos de "Z". Os nascidos entre 1996 e 2010, que viveram uma infância com acesso à internet, MP3, PlayStation e desenhos animados, mas que ainda tiveram a oportunidade de brincar de pega-pega, ler revistinhas e usar a própria imaginação sem a distração de uma tela 24/7. Esses que já têm idade o suficiente para sofrer com a nostalgia de um tempo que não volta mais são precisamente os mais afetados pelo efeito coitadolândia desencadeado por "(500) Dias Com Ela", dirigido por Mark Webb e lançado no ano em questão.
Seja pela famigerada cena do casal no elevador – I love The Smiths! – ou por toda a estética jovem e alternativa da década, a história de Tom (Joseph Gordon-Levitt) e Summer (Zooey Deschanel) marcou época e apresentou uma nova forma de escrever comédias românticas, em que nem tudo acaba como esperado. Não somente, o longa abriu mais espaço para o arquétipo do coitado. O cara inseguro e desacreditado que tem a vida transformada depois de encontrar a garota dos sonhos – ou a Manic Pixie Dream Girl, como assinou o crítico norte-americano, Nathan Rabin.

Não me leve a mal. Sou um grande admirador. Ótimos atores, um roteiro redondo e uma trilha sonora apaixonante, desde "Quelqu'un M'a Dit", de Carla Bruni, a "She's Got You High", da banda indie britânica Mumm-Ra. Mas temos que vestir a carapuça. É conveniente demais ficar do lado do protagonista, até se identificar com ele. E, muitas vezes, fazemos isso sem mesmo perceber. No final do dia, o ponto aonde quero chegar é: ninguém deveria se sentir representado por personagens como Tom Hansen.
Você encontra dezenas de vídeos no YouTube que fazem uma análise profunda sobre expectativas desalinhadas e a importância da responsabilidade afetiva, sob a ótica de "(500) Dias com Ela". Mas acontece que, ainda assim, é muito fácil acreditar que Summer Finn, Ramona Flowers (Mary Elizabeth Winstead, em "Scott Pilgrim contra o Mundo"), Clementine Kruczynski (Kate Winslet, em "Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças") e tantas outras são mulheres completamente insensíveis e desalmadas. O fato, que deveria ser óbvio, é que elas não deviam absolutamente nada a homem nenhum.

O BAQUE
E é nesse momento que Nikki Freeman entra na sala. A performance irretocável e perturbadora de Inde Navarrette em "Obsessão" (2025) está provocando um estado de choque em públicos do mundo inteiro. Você pode até não ser a pessoa mais adepta a assistir filmes de terror, especialmente no cinema – como eu, que pulo da cadeira a cada barulho alto – mas o lançamento do jovem diretor e criador de esquetes de comédia nas redes sociais, Curry Baker, já entrou pra história.
O longa arrecadou mais de 280 milhões de dólares em bilheteria mundial, o que representa quase 400 vezes o valor do seu orçamento (750 mil dólares). Com uma produção independente, ele alcançou o posto de maior sucesso da Focus Features – antes ocupado por "Traffic" (2000) –, superou "Atividade Paranormal" (2009) no recorde de maior arrecadação doméstica de terror nos Estados Unidos e com certeza ainda vai ser muito citado na próxima temporada de premiações. Mas os números não me impressionam tanto quanto a premissa subversiva desse filme.

Bear (Michael Johnston) se encaixa perfeitamente no estereótipo mencionado antes. Um rapaz com a autoimagem deturpada que desenvolve sentimentos românticos obsessivos pela melhor amiga, Nikkie, para quem não consegue abrir seu coração. Tudo muda quando ele resolve usar um brinquedo mágico desconhecido chamado One Wish Willow (traduzido para o português como Salgueiro de Um Desejo) para pedir que a moça o ame mais do que qualquer pessoa no mundo.
O primeiro absurdo que inquieta o espectador é a quantidade de oportunidades de se declarar que o protagonista perdeu ou simplesmente resolveu ignorar. Após o pedido, Bear percebe, quase de imediato, a incoerência aterrorizante que toma conta do comportamento de Nikkie – antes, uma personalidade forte, irreverente e reservada. O excelente trabalho das direções de arte (Sally Choi) e fotografia (Taylor Clemons) na manipulação das sombras compõe uma série de quadros arrepiantes, a partir do momento em que a personagem passa a ser controlada pelo desejo do homem.

A penumbra indica justamente o apagamento da individualidade daquela mulher. Mesmo notando que a amiga está fora de si, Bear apenas continua. E é chegar a essa conclusão que deixa uma sessão inteira boquiaberta. A pedrada "O que tem de tão ruim em estar comigo?", proferida logo após um pedido socorro, somada à expressão totalmente apática de Nikkie durante a cena de sexo, é mais do que suficiente para compreender que tudo aquilo se tratava de um abuso – e Bear sabia.
Talvez, meus amigos, Freaky Nikki só não entre para a lista dos interesses amorosos mais odiados do cinema porque o roteiro deixa tão óbvio que ela é a vítima que discordar disso é praticamente um crime.
O FALSO AMOR
"Obsessão" brinca com o estereótipo da namorada ciumenta, histérica, grudenta e melodramática. Inclusive, é justamente desse comportamento caricato que nasce a maior parte dos momentos de alívio cômico no filme.

Nikkie Freeman também está inserida no arquétipo da Manic Pixie Dream Girl: a garota idealizada do imaginário masculino, divertida, corajosa, que tem um olhar apaixonante, quase sempre acompanhado por uma franja, um piercing ou mechas coloridas. Mas há uma característica que parece cativar mais do que todas as outras: a liberdade. E talvez seja justamente por isso que essas personagens despertam tanto ódio em alguns públicos. Elas são livres demais.
Curry Baker, aos 26 anos, consegue estampar na nossa cara que, muitas vezes, só percebemos a existência da possibilidade de escolha de uma mulher quando isso é arrancado dela.

O grande problema do "cara legal" é que ele incorpora tanto a posição de vítima e acredita tão veementemente nos próprios motivos que é incapaz de se perguntar: "Será que eu sou mesmo uma pessoa tão boa assim?". Aliás, essa dúvida sequer passa pela cabeça dele. A verdade que Tom e Bear não têm coragem de encarar é que a obsessão – um falso amor – é somente deles e ninguém tem a obrigação de amá-los, não importa o quanto eles sofram ou se façam de coitados.
Você, leitor, é livre para concordar ou discordar de toda a minha linha de raciocínio. Mas é fato que estamos diante duas obras geracionais. E para quem acha que essas histórias não tem nada a ver uma com a outra, o que você acha que o Tom pediria se tivesse um One Wish Willow?




Comentários