Por que as pessoas estão cantando Wonderwall e Sweet Caroline na Copa?
- Marina Branco
- há 2 dias
- 9 min de leitura

Quem sabe um dia eu ou você, que lê esse texto, tenhamos a chance de estar nas arquibancadas de um jogo da Inglaterra na Copa do Mundo. Quem sabe, com mais sorte ainda, os ingleses vençam aquela partida. E quem sabe, como quem escuta um trecho da história, nossos olhos se fechem pra que nossos ouvidos possam ouvir declarações de amor das mais sinceras que existem.
Desde sempre, a torcida da Inglaterra teve um jeito próprio de torcer e, mais que tudo, agradecer a seus jogadores - cantando para eles. Em serenatas ensaiadas por milhões de pessoas, os ingleses sempre levaram suas músicas conhecidas por todo o mundo para o campo, se declarando para seus jogadores com o romance que só cabe no nível de amor que se sente por uma seleção.
Nessa Copa do Mundo, então, se estivesse em um estádio dos Estados Unidos, México ou Canadá, eu fecharia os olhos ao ouvir o apito final. E, quem sabe, meus ouvidos sentissem o que é a Wonderwall inglessa em 2026.
Wonderwall, clássico do Oasis lançado nos anos 1990, virou o hino não oficial da seleção inglesa, sendo cantado ao final de toda partida com e para os jogadores da Inglaterra.
A canção ganhou força depois da estreia da Inglaterra no Mundial, na vitória por 4 a 2 sobre a Croácia, em Dallas. Após o apito final, os alto-falantes tocaram Wonderwall, e os torcedores cantaram em coro, em volume tão alto que parecia superar o próprio sistema de som do estádio. Dali em diante, se tornou a “nossa música” que todo casal elege, entre a torcida e o elenco.
“Aquele provavelmente foi um dos meus momentos favoritos com a camisa da Inglaterra, especialmente em um grande torneio”, disse o capitão Harry Kane em entrevista ao podcast Lion’s Den.

“Sabemos que ainda não conquistamos nada, mas aquela conexão emocional com os torcedores foi incrível. Sabemos o quanto isso significa para eles. Temos essa ligação neste momento, mas aquele instante, cantando Wonderwall no estádio, foi realmente muito especial”, completou.
Desde então, a música deixou de ser apenas uma escolha de playlist e virou símbolo da campanha inglesa. Depois de cada grande resultado, o clássico do Oasis passou a funcionar como uma espécie de celebração coletiva, com uma letra que descrevia fielmente o que os ingleses sentiam pelo time.
Por que Wonderwall?
Wonderwall não é, no entanto, a única música representativa para a Inglaterra. Sweet Caroline, de Neil Diamond, por exemplo, ficou fortemente associada ao período de Gareth Southgate, especialmente durante a Eurocopa de 2020, disputada em 2021 por causa da pandemia.
Com Thomas Tuchel no comando, a Inglaterra iniciou uma nova fase. O time manteve a pressão histórica de encerrar um jejum que dura desde 1966, quando conquistou seu único título mundial, mas passou a buscar uma identidade diferente dentro e fora de campo.
Foi nesse contexto que Wonderwall se encaixou. A música fazia parte de uma lista enviada pela federação inglesa à Fifa antes do torneio, indicando Wonderwall, Sweet Caroline e Hey Jude, dos Beatles, para serem tocadas em diferentes momentos dos jogos.
Na prática, porém, a canção do Oasis foi a que ganhou vida própria. Sweet Caroline já era muito ligada ao ciclo de Southgate, enquanto Hey Jude, apesar da relação evidente com Jude Bellingham, parecia concentrada demais em um único jogador. Wonderwall, por outro lado, conseguiu representar o coletivo, unindo jogadores, arquibancada e campanha em uma mensagem simples e potente.

Wonderwalls
A primeira grande cena aconteceu em Dallas, depois da vitória sobre a Croácia. A partir dali, cada resultado importante reforçou a tradição.
Na classificação contra a República Democrática do Congo, vencida de virada por 2 a 1, a música voltou a tocar após o apito final. Os jogadores ingleses deram os braços e cantaram com os torcedores, consolidando o ritual desta Copa.
A letra também ganhou uma leitura simbólica entre os fãs. Para parte da torcida, a ideia de “salvação” presente na música pareceu quase profética diante da tentativa inglesa de voltar a conquistar um grande torneio, algo que não acontece desde 1966.

O momento mais recente veio na vitória por 3 a 2 sobre o México, no Estádio Azteca, pelas oitavas de final. A Inglaterra teve um jogador expulso, suportou cerca de 30 minutos de pressão intensa e precisou se defender com entrega total até o apito final. Depois da sobrevivência em um dos jogos mais caóticos da Copa, a arquibancada respondeu com uma demonstração ensurdecedora de carinho.
Ao ver seus jogadores em campo, vitoriosos, os torcedores que há tantos anos não sabem o que é comemorar um título veem ali a chance de terminar essa espera, e cantam.
“Maybe, you’re gonna be the one that saves me, and after all, you’re my wonderwall”.

“Essa música pertence ao povo”
A escolha também recebeu o aval de Noel Gallagher, compositor de Wonderwall e um dos nomes centrais do Oasis. Em entrevista à Talksport, ele disse ter ficado impressionado com a cena dos torcedores cantando a música durante a Copa.
“Achei que foi um momento incrível. Eu não conseguia acreditar no que estava vendo... mas essa música pertence ao povo”, afirmou Noel.
A frase ajuda a explicar por que a canção funcionou tão bem. Wonderwall já era um dos maiores clássicos do Britpop e uma das músicas inglesas mais conhecidas no mundo. Ao ser apropriada pela torcida, deixou de pertencer apenas à banda e passou a carregar um sentido coletivo.

Essa não foi a primeira vez que a música apareceu em um grande evento esportivo. Em 2012, Liam Gallagher, vocalista do Oasis, apresentou Wonderwall com a banda Beady Eye na Cerimônia de Encerramento dos Jogos Olímpicos de Londres, durante o segmento A Symphony of British Music.
Sweet Caroline
A Inglaterra, no entanto, já tinha uma música de arquibancada antes desta Copa. Sweet Caroline se tornou hino não oficial da torcida durante a Eurocopa de 2020, quando milhares de torcedores cantaram o clássico de Neil Diamond em Wembley e em outras partes do país.
A música não nasceu ligada à seleção inglesa, nem sequer ao futebol. Ainda assim, foi assimilada pela torcida por ser simples, alegre e fácil de cantar em grupo.
Um dos trechos mais importantes para explicar essa força é o momento em que o público responde ao verso “good times never seemed so good” com o famoso coro “so good, so good, so good”. Essa repetição, quase feita sob medida para arquibancadas, ajudou a transformar a música em celebração esportiva.

Neil Diamond ficou encantado ao ver a canção sendo cantada com tanta força na Euro e chegou a enviar uma mensagem para os finalistas do torneio, disputado em 2021.
O papel do DJ de Wembley
A consolidação de Sweet Caroline como hino inglês teve um personagem importante: Tony Perry, DJ do Estádio de Wembley.
Depois da vitória da Inglaterra sobre a Alemanha nas oitavas de final da Euro 2020, Perry decidiu tocar Sweet Caroline em vez de Vindaloo, música da banda Fat Les que era uma escolha mais tradicional entre os cantos ingleses.
O DJ contou que a música já havia sido tocada antes da partida e que torcedores dos dois países reagiram muito bem. Naquele momento, ele pensou que Sweet Caroline funcionaria melhor do que Vindaloo, especialmente pelo contexto de saída da pandemia e pelo peso simbólico da vitória sobre a Alemanha.
A partida também carregava um fantasma histórico para Gareth Southgate. Na Euro de 1996, como jogador, ele perdeu um pênalti decisivo contra os alemães em Wembley, e em 2021, já como treinador, comandou a vitória que ajudou a “descansar” aquela lembrança.
Depois da semifinal contra a Dinamarca, então, Perry repetiu a música. A partir dali, Sweet Caroline passou a ser parte central da trilha emocional daquela campanha.
Southgate, por sua vez, aprovou a escolha e resumiu o efeito da canção ao dizer que ela era alegre e unia as pessoas.
Playlist inglesa
O sucesso de Sweet Caroline chamou atenção justamente porque a torcida inglesa já tinha um repertório próprio. Antes dela, cânticos como Football’s Coming Home, World in Motion e Vindaloo já faziam parte do imaginário da seleção.
Football’s Coming Home, por exemplo, se tornou quase inseparável das campanhas inglesas desde os anos 1990, carregando o peso de falar sobre o “retorno” do futebol - e dos títulos - ao país que o criou.
World in Motion, do New Order, também carrega forte memória futebolística, e Vindaloo, do Fat Les, virou canto de arquibancada em grandes torneios.
Mesmo assim, Sweet Caroline ganhou um espaço diferente. A música chegou sem nascer no futebol, mas pegou porque funcionou no momento certo, embalando uma torcida em busca de catarse coletiva.
Do Fenway Park a Wembley
Antes de virar hino inglês, Sweet Caroline já era uma tradição no esporte americano. A música se tornou um hit no Fenway Park, casa do Boston Red Sox, time de beisebol de Boston.
A história começou em 1997, quando Amy Tobey, então responsável pela trilha sonora do estádio, tocou a música em homenagem a uma pessoa da equipe que havia dado o nome Caroline à filha recém-nascida. A reação do público foi positiva, e a canção passou a aparecer com frequência até virar parte da identidade do estádio.

Depois, Sweet Caroline se espalhou. Passou a tocar em jogos do Carolina Panthers, da NFL, e também em outros ambientes esportivos. Na Inglaterra, já era cantada por torcedores do Aston Villa, no Villa Park, e do Chelsea, em Stamford Bridge. Também aparecia em jogos de críquete e lutas de boxe.
Em 2013, após o atentado na Maratona de Boston, a música ganhou peso emocional ainda maior. Neil Diamond foi ao Fenway Park cantar Sweet Caroline, e a canção passou a representar união e resistência para a cidade.
A Irlanda do Norte também reivindica a música
Sweet Caroline, no entanto, tem um “ciuminho”. A Inglaterra não foi a primeira seleção britânica a adotar Sweet Caroline, já que torcedores da Irlanda do Norte já cantavam a música desde 2005, curiosamente depois de uma vitória sobre a própria Inglaterra.
Por isso, quando os ingleses passaram a tratar a canção como um hino da equipe de Southgate, houve brincadeiras. O apresentador Eamonn Holmes, da Irlanda do Norte, chegou a dizer que a Inglaterra deveria “pegar sua própria música” após a vitória sobre a Dinamarca na semifinal da Euro 2020.

Como surgem as músicas da Copa?
Na Copa do Mundo, as músicas tocadas nos estádios não são escolhidas ao acaso. A Fifa monta previamente um catálogo com mais de 750 canções oficiais para o torneio.
A entidade conta com uma equipe dedicada ao entretenimento nos estádios e trabalha junto às federações nacionais para criar playlists que misturam clássicos do ambiente esportivo com músicas ligadas à identidade cultural de cada seleção.
Cada equipe tem uma música de assinatura, tocada durante o anúncio da escalação, uma trilha para o aquecimento e outra para comemorar gols. Depois das partidas, a torcida do time vencedor também canta uma música específica para celebrar o resultado.

Foi assim que Wonderwall entrou no repertório inglês. A música já estava na lista enviada pela federação, mas a reação da arquibancada fez com que ela crescesse durante o torneio.
As playlists da Copa de 2026, primeira edição com 48 seleções, também funcionam como um retrato cultural do torneio.
Algumas músicas ultrapassam fronteiras e aparecem em listas de diferentes países. É o caso de Seven Nation Army, do The White Stripes, Thunderstruck, do AC/DC, e Freed from Desire, de Gala, sucesso eurodance dos anos 1990 que já é presença constante em estádios há pelo menos uma década.
Outras escolhas são mais ligadas à identidade nacional. A Argentina escolheu El Matador, da banda Los Fabulosos Cadillacs, como música de aquecimento e também para comemorar gols.
Embora o refrão pareça combinar com o faro de gol de Lionel Messi, a canção tem um significado mais sombrio, ligado às ditaduras latino-americanas e à violência de Estado nos anos 1970.
Gana usa Kakalika, sucesso dançante lançado em 2025 pela dupla DopeNation, tanto como música de assinatura quanto para gols. Os artistas definem a faixa como uma mistura de estilos e idiomas nacionais e internacionais, criada para celebrar a diversidade e incentivar o público a se divertir.

O México escolheu três músicas diferentes do Mariachi Vargas, grupo tradicional fundado em 1897. A Coreia do Sul apostou em uma seleção de K-pop com artistas como Blackpink e BTS.
A França celebra gols de Kylian Mbappé ao som de One More Time, do Daft Punk. A Austrália adotou Down Under, da banda Men At Work, como música de assinatura. A Bélgica aquece com Pump Up the Jam, do Technotronic.
Nos Estados Unidos, Take Me Home, Country Roads, de John Denver, ganhou força com a torcida durante a Copa. A escolha apareceu em meio a críticas ao grito “USA! USA!”, considerado pouco criativo por parte dos observadores.
Por que algumas músicas pegam?
Para Andrew Lawn, autor do livro We Lose Every Week: The History of Football Chanting, músicas de arquibancada funcionam quando são marcantes, divertidas e facilmente reconhecíveis.
O contexto também é decisivo. Uma canção pode já existir há décadas, mas só se transforma em hino quando é associada a um momento de sucesso.

Foi assim com Sweet Caroline na Eurocopa e com Wonderwall na Copa de 2026. As duas músicas já eram conhecidas, mas ganharam novos significados quando passaram a acompanhar vitórias, celebrações e momentos de união entre time e torcida.
No caso de Sweet Caroline, a saída da pandemia deu ainda mais força a versos ligados a contato, aproximação e afeto. Depois de meses de isolamento, cantar em grupo sobre “dar as mãos” e “tocar” tinha um peso simbólico especial.
Trilha rumo à taça
A Inglaterra, assim, chega às quartas de final contra a Noruega com uma música que já virou marca da campanha. Dentro de campo, o time tenta seguir vivo na busca por um título que não vem desde 1966. Fora dele, a torcida encontrou em Wonderwall uma forma de participar da caminhada.
A cada vitória, os jogadores se aproximam da arquibancada, quase que esperando sua merecida serenata. A cada apito final, o refrão volta. E, enquanto a Inglaterra seguir viva, Wonderwall continuará sendo o som da esperança inglesa na Copa de 2026.
Quem sabe, então, os ingleses cantem mais uma vez. Quem sabe, cantem de novo na semifinal. E, quem sabe, sejam eles, finalmente, os que salvarão os ingleses e devolverão o futebol à sua casa.
