Feito Pipa é o sonho do Brasil de voar mais uma vez para o Oscar

"A criança que se sente amada e livre encontra no ambiente o campo ideal para o seu verdadeiro desenvolvimento." — Maria Montessori
A citação de Maria Montessori destaca que o desenvolvimento pleno da infância exige um espaço onde a criança possa ser livre e se sentir profundamente amada. No enredo do filme Feito Pipa, essa relação ganha vida no vínculo entre Gugu e sua avó Dilma. Ao lado dela, na liberdade simples do cotidiano perto da barragem, o garoto queer de 11 anos encontra um refúgio acolhedor e seguro, totalmente distante da ameaça e do ambiente hostil representado pelo pai.
Contudo, à medida que o Alzheimer avança e ameaça apagar a memória da avó, a própria liberdade e o equilíbrio emocional de Gugu entram em risco. Ao tentar esconder a gravidade da situação para não se separar do seu porto seguro, o menino vive o dilema de ver o seu ambiente ideal ruir.
Assim, a narrativa ilustra com delicadeza como o amor incondicional entre avó e neto é o solo firme que sustained o desenvolvimento do garoto, ao mesmo tempo em que expõe a vulnerabilidade de uma infância prestes a perder seu espaço de afeto e proteção.
Vó a primeira mãe
Uma das principais conexões do filme é o cuidado e o amor da avó Dilma por seu neto. Durante todo o longa, é nítido como a narrativa mergulha no passado da avó e em seu presente, destacando o cuidado constante com o garoto e a importância dele em sua vida. É muito forte a atuação de Teca Pereira e a forma como sua personagem fortalece o emocional do telespectador, transitando de cenas intensas até momentos de humor.

Dilma, sem dúvida, é um pilar para o desenvolvimento do protagonista; ela representa a figura de amor, cuidado e maternidade, indo além ao moldar as referências da personalidade de Gugu. Sem o seu papel, o neto, em boa parte do filme, não seria quem é: um garoto feliz, livre e cheio de sonhos.
Gugu
O talento individual de Yuri ganha ainda mais força quando o diretor evidencia sua importância para a dinâmica da narrativa. A escolha do garoto para o papel foi, sem dúvidas, uma decisão certeira e brilhante, pois ele conduz a cena com extrema naturalidade. Mesmo dividindo a tela com atores consagrados e com jovens talentos que também despontam como promessas do cinema, Yuri não se deixa intimidar pelo peso de contracenar com um elenco de peso, entregando uma atuação admirável e madura.
Com essa entrega cativante, ele se consolida não apenas como o grande protagonista, mas como o próprio coração da obra, sendo o pilar de todas as conexões emocionais do enredo. Sua interpretação equilibra de forma impecável a leveza, o humor dinâmico, a força diante dos desafios e o encantamento de um garoto sonhador. Sem o seu magnetismo, a narrativa jamais teria a mesma intensidade, consolidando o filme como uma história inesquecível, que acolhe o espectador como um abraço e traz um acalento quentinho ao coração.
Laços

O terceiro ato do filme marca uma grande transformação na vida de Gugu, destacando-se pela evolução na dinâmica com seu pai, Batista (interpretado por Lázaro Ramos). Se, no início da obra, o garoto desfrutava de conexões majoritariamente positivas com os demais à sua volta em contraste com a hostilidade inicial representada pelo pai, o enredo passa a registrar uma importante guinada.
Assim como essa virada de chave impulsiona Gugu rumo ao amadurecimento, o roteiro também revela os esforços de Batista para demonstrar afeto ao filho. Mesmo que de forma ainda bruta e conservadora, os laços entre os dois se fortalecem. Embora o desfecho permaneça em aberto, a narrativa sinaliza que mudanças profundas continuarão a moldar a relação de ambos e a vivência da paternidade.
Veredito
Com todas as cartas na mesa, a direção de Alan Deberton, alinhada ao roteiro sensível de André Araújo, constrói uma obra emocionante que captura a essência do cinema brasileiro nos últimos anos. O grande brilho visual do filme repousa na direção de arte assinada por Dayse Barreto, que transforma cada cenário em uma composição poética e aconchegante para quem assiste.
Sem falar no elenco infantil, que traz uma autenticidade apaixonante, com destaque para a entrega do jovem Yuri no papel principal, equilibrada perfeitamente pela presença de Teca Pereira, que imprime uma leveza e uma conexão profunda em cada cena que compartilham.
Em meio à corrida do Oscar, defender e prestigiar uma obra tão genuína nos cinemas é reconhecer a grandeza do nosso audiovisual e o impacto universal de suas histórias. Por fim, Feito Pipa é um filme que flutua alto na memória, celebrando o afeto, a infância e o poder transformador de um cinema feito com alma. Nota: 4/5 🪁⚽🌈




Comentários