CRÍTICA | O Beijo da Mulher Aranha é uma contradição de erros e acertos
- Artur Soares

- há 10 minutos
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“Você tem a chave daquela porta? Ficarei feliz em te seguir. Caso contrário, fugirei daqui do meu próprio jeito”. Essa frase dita por Luis Molina, personagem vivido por William Hurt em O Beijo da Mulher Aranha (1985), sintetiza com precisão o âmago do filme. O longa dirigido por Héctor Babenco retrata a história de alguém que usava o cinema como válvula de escape da realidade hostil que o cerca. Mais de 40 anos depois, a história está prestes a ganhar uma reimaginação sob direção de Bill Condon.
A nova versão, que chega hoje aos cinemas, investe em uma abordagem diferente do filme clássico. Enquanto na obra de Babenco tínhamos Molina relembrando cenas de um filme romântico nazifascista, na nova versão os devaneios do personagem são sobre uma história de amor musical e com fortes influências latinas. Dessa forma, o filme acaba se dividindo entre um drama de dois personagens presos e um musical digno da época de ouro de Hollywood.
Assim como na obra original, a história acompanha Luis Molina (Tonatiuh Elizarraraz), um homem gay que precisa dividir cela com Valentín Arregui (Diego Luna), um prisioneiro político repleto de preconceitos. Para matar o tempo na prisão, Molina conta a história de seu filme favorito para Valentín. Ao longo da obra, há um desenvolvimento em paralelo dessas duas histórias: a dos dois homens e a do filme de Molina.
Antes de qualquer coisa, é necessário destacar que o remake erra na mesma medida que acerta. Ele corrige tropeços do longa original, enquanto cria novos problemas para si. Em meio a essa contradição ambulante, existem momentos verdadeiramente prazerosos, enquanto outros te fazem questionar o porquê você ainda continua a assistir aquela história.

Um dos maiores pontos positivos da nova versão é o modo como ela traz uma bagagem maior para os dois personagens. Enquanto na produção de 1985 tínhamos apenas um breve relance de quem eram aquelas pessoas, aqui ocorre um aprofundamento maior de suas vidas antes da prisão. Por conta disso, se torna mais recompensador ver o desenvolvimento da relação entre os dois e, futuramente, o nascimento da paixão.
Outro grande acerto criativo está na repaginação do filme contado por Molina. É fato que envelheceu mal o personagem de William Hurt ser devoto a um longa que é claramente pró-nazista. Há quem possa argumentar que a própria obra critica isso por meio da figura de Valentín, mas não altera o fato de que Molina enxerga aquilo como o ideal de “romantismo”. Em 2026, o Molina vivido por Tonatiuh conta uma história que bebe de influências latinas, homenageando em muito as narrativas das novelas mexicanas.
A estética latina é potencializada pelas cores vibrantes e números musicais. Quando Ingrid Luna (Jennifer Lopez) entra em cena, o filme se torna um mundo mágico e completamente distante daquela realidade fria da cadeia. Esse extremo contraste entre as duas realidades é algo muito charmoso, que relembra ao público que aquilo tudo não passa de um sonho e que a vida real era muito mais sem cor do que um musical. Por mais encantadora que seja, essa narrativa de Molina acaba sendo apressada por conta do pouquíssimo tempo destinado às sequências musicais, não dando tempo para a construção da relação entre aqueles personagens.

Na mesma medida que as cenas musicais são muito bem coreografadas e enchem os olhos com seu visual, elas também são a raiz do principal problema do filme. Bill Condon não demonstra maestria na hora de conciliar as duas narrativas. Quando o público finalmente está se interessando pela trama de Luis e Valentín, surge um musical que corta todo o ritmo do que estava sendo construído. Quando o público está se engajando na história da Mulher Aranha, de repente o longa retorna para a trama na prisão.
Essa constante quebra de ritmo é frustrante e impossibilita o desenvolvimento de alguma relação com aqueles personagens. A eterna indecisão de qual história deve ser o foco acaba prejudicando as duas tramas. Além disso, por optar por sequências musicais, essa quebra se torna extremamente abrupta. Em contrapartida, na obra de 1985, temos trocas mais suaves, visto que o filme de Molina não era um musical naquela versão.
Apesar do remake trazer mais bagagem para os dois protagonistas, ele apresenta um regresso nas suas personalidades. O Valentín vivido por Diego Luna é um homem completamente odiável, que demonstra diversos ataques de raiva e que muitas vezes parecem sem sentido. Se torna quase impossível se comover pelo personagem, mesmo com seu passado trágico. Enquanto o Molina de Tonatiuh parece ter sua personalidade reduzida ao estereótipo de “gay que se apaixona pelo colega hetero”.

A dupla também não apresenta atuações no mesmo nível das de William Hurt e Raúl Juliá, algo que com certeza pesa na hora de sustentar esse remake. Por falar em atuação, a performance de Jennifer Lopez também não é satisfatória. Mesmo sendo uma atriz fraca, ela é auxiliada pelo diretor, que reserva para ela os momentos mais encantadores da obra. Apesar de quebrar o ritmo da narrativa, as cenas musicais conseguem se tornar a melhor coisa presente na versão de Condon.
Ainda nesse tópico, vale ressaltar em como a nova produção expande a mitologia em volta da Mulher Aranha. Enquanto no longa original tínhamos apenas uma breve aparição dela, quase sem importância, aqui ela ganha um papel de destaque tanto na narrativa de Molina, como em seu próprio desenvolvimento pessoal. A personagem ganha uma função simbólica, representando a morte do antigo eu e o sacrifício em prol do amor.
A temática política ganha ainda mais força no remake. O longa faz questão de dar mais detalhes sobre o contexto político da história, algo que senti falta na obra de 1985. Por sua vez, o novo filme não consegue entregar sequências igualmente impactantes ao seu antecessor. Na mesma medida que entendemos mais os conflitos políticos presentes, também perdemos um senso de violência e desumanidade que norteava a obra de Babenco.

A obra tem um desfecho trágico, assim como o original. Entretanto, a nova versão consegue construir uma cena final verdadeiramente tocante, em que musical e vida real se mesclam para dar origem a um momento cheio de emoção. Após isso, retomamos para a prisão, local onde o filme realmente se encerra, como se lembrasse para nós que, por trás de toda a pompa do musical, a realidade é na verdade o que acontecia dentro daquela cela.
O Beijo da Mulher Aranha (2026) se consagra como uma grande contradição de erros e acertos que ficam constantemente se anulando. Parece que, assim que a obra demonstra um ponto positivo, ela faz questão de mostrar um ponto negativo logo em seguida. Talvez, essa seja uma representação narrativa da dicotomia presente na relação dos dois prisioneiros, ou talvez só seja incompetência do diretor em não manter a constância na qualidade de sua obra. Como a vida não é um musical colorido, acredito mais nessa segunda opção.
Nota: 3/5








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