CRÍTICA | A Linha Geral (1929) é a obra-prima esquecida de Sergei Eisenstein
- Rafael Vaccaro Madrid
- 5 de ago.
- 4 min de leitura

Um novo cinema
A década de 1920 estremeceu diante do novo. Na geopolítica, o mundo observou, embasbacado, a vitória de uma União Soviética traumatizada pelas chagas da Guerra Civil Russa (1918–1922). No cinema, grupos de vanguarda passavam a ter maior relevância — os dadaístas, os surrealistas, os expressionistas… todos estes convergiam para uma verdadeira revolução estético-técnico-política.
Se essas vanguardas eram movimentos exclusivos de um seleto grupo de países da Europa Ocidental (majoritariamente França e Alemanha), Sergei Eisenstein e Dziga Vertov pariam, simultaneamente, um tipo de cinema vanguardista e verdadeiramente revolucionário na União Soviética: o construtivismo soviético. Hoje, olhamos para o passado e vemos filmes como O Encouraçado Potemkin (1925) e A Greve (1925), ambos dirigidos por Eisenstein, com uma admiração que já se tornou unânime na cinefilia.
A Linha Geral (1929), de Sergei Eisenstein, não passou por esse processo de canonização na sagrada escritura da história do cinema. Não poupo palavras para afirmar: se trata de uma obra-prima deixada de lado — e é preciso disputar certas narrativas que assombram o longa-metragem até os dias de hoje.

Com spoilers
Esse é, quiçá, o filme mais subestimado de toda a obra de Eisenstein. Talvez, ainda, esse seja o motivo do discurso ao seu redor ressoar uma unanimidade: se trata de uma obra propagandística até a sua última gota; stalinista da ponta dos pés até o último fio de cabelo. Como eu já disse, acredito que devemos disputar essa narrativa.
O futurismo eisensteiniano faz da montagem uma colisão. Em A Linha Geral (1929), a primeira colisão já aparece nos primeiros minutos, numa citação de Lenin:
Em algumas ocasiões, a organização exemplar do trabalho local, mesmo em pequena escala, se mostra a mais eficiente para as pessoas que um grande número de estabelecimentos estatais com um funcionamento centralizado.
Está aí o primeiro choque: a kolkhoze (propriedade agrícola coletiva, controlada pelo campesinato) batalha contra a sovkhoze (propriedade agrícola controlada pelo Estado soviético). Mesmo a futura declaração de amor ao aparato estatal nos minutos seguintes do longa — quando o campesinato esperançoso consegue, com muita luta, atrair a atenção milagrosa dos servidores públicos ao seu trabalho agrícola — é contraposta a uma crítica à burocratização dos serviços públicos, já que esses mesmos servidores apresentam uma desconfiança típica de seu tempo, um olhar dissimulado condizente ao do burocrata soviético daquele momento. A batalha pela terra é um sonho, literalmente; tudo é filmado de um jeito onírico. São muitas nuances para um filme tido como um monólito stalinista.
É nítido como o longa funciona como um manifesto, ao mesmo tempo em que carrega em si uma vontade de fazer-se documental durante todo o tempo. Como de praxe no cinema do diretor soviético, os intérpretes são meros amadores, pessoas comuns sem treinamento de encenação prévio. Dessa vez, a diferença reside no protagonismo. Se O Encouraçado Potemkin (1925) e Outubro (1927) dispensam protagonistas, A Linha Geral (1929) conta com a presença de Martha, uma camponesa pobre que vivencia os “milagres” da coletivização do campo.
Tudo isso é tão incomum, tão estranho, tão macabro para o cinema de Eisenstein… que, sinceramente, me espanta a falta de disputas no discurso que se firmou na cinefilia nas últimas décadas. Ignora-se, por exemplo, que Leon Trótski seria uma importante figura do filme — mas sua presença foi vetada, obviamente, ao passo em que a disputa política interna entre os bolcheviques se radicalizava.
Em certos momentos, Eisenstein utiliza de alguns artifícios já conhecidos do seu cinema — mas, aqui, de uma maneira um pouco diferente. O close-up nos trabalhadores (anteriormente, operários; aqui, camponeses) evidencia um distúrbio no antigo sonho socialista. Seu cinema parece não só amadurecer, mas, também, se desiludir frente às diversas mudanças ocorridas no país. Um conflito: a chegada da tecnologia no campo não soluciona os problemas dessa gente sofrida de imediato. Pelo contrário, as pessoas encaram a máquina como quem encara um demônio, algo indesejável.

Tudo isso, é claro, se dá nos limites da censura stalinista (que viria a proibir filmes do diretor na década de 40). É óbvio que um filme que trata da coletivização do campo não poderia ser tão amargo. Mas a própria resposta que Eisenstein dá a essa limitação é genial: o cineasta confia no progresso tecnológico enquanto extensão do desejo. Sim, o desejo de produzir, o desejo de construir um novo mundo — sob Stalin ou Trótski, não importa. A montagem da contradição, essa montagem plenamente ambivalente (já que constrói o todo do filme a partir de fragmentos que destroem seus antecessores) é resolvida a partir do desejo.
A produção e a máquina eram apenas objetos de uma massa politicamente organizada nos três primeiros filmes do diretor. Aqui, as coisas mudam radicalmente. Falamos de uma maquinaria viva, que deseja — uma maquinaria essencialmente sexual, que ejacula e concede aos mortais o poder da reprodução.

É lamentável que a crítica de cinema, especialmente a crítica de cinema anglófona, se limite à mera repetição dogmática a respeito de A Linha Geral (1929). Me pergunto, inclusive, se muitos dos críticos que descartam o longa como “propaganda stalinista” chegaram a o assistir. E se o assistiram, se compreenderam um mísero segundo do que acontecia na tela.
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