CRÍTICA | Exit 8 é mais uma anomalia das adaptações de games
- Victor Lee

- 30 de abr.
- 3 min de leitura

Adaptar a linguagem dos videogames para o cinema é sempre um desafio arriscado, mas a versão cinematográfica de Exit 8 consegue transpor a agonia interativa de sua obra original para a tela grande com uma precisão cirúrgica. Sob a direção de Genki Kawamura, o longa se estabelece como um suspense psicológico desafiador, fundamentado em uma premissa tão simples quanto punitiva. Mas infelizmente, não é tudo isso.
Preso em um claustrofóbico corredor de metrô, o protagonista deve seguir uma regra absoluta: avançar apenas se o ambiente estiver normal; caso contrário, ao menor sinal de uma anomalia, deve retornar imediatamente. Nessa estrutura de loop, um único deslize o condena a voltar ao ponto de partida, alimentando uma espiral de desespero e um questionamento constante sobre a própria sanidade e a real possibilidade de fuga.
A Construção da Atmosfera em Primeira Pessoa
O longa demonstra uma tentativa de força logo em seu prólogo. Nos primeiros seis minutos de projeção, a direção constrói uma narrativa envolvente e essencialmente urbana. A escolha de iniciar o relato em primeira pessoa não é um mero capricho estético; é uma ferramenta narrativa que nos ancora na vivência do protagonista.
Mesmo tendo um vislumbre fugaz da identidade do personagem nesse trecho inicial, somos imediatamente absorvidos pela sua percepção de mundo. O filme captura a essência da "selva de pedra" antes de distorcê-la. É fascinante observar a transição orgânica do mundano para o surreal. À medida que o protagonista compreende que está preso no "loop", a decupagem do filme se adapta, ampliando o campo de visão para que o espectador, junto ao personagem, passe a escanear cada detalhe do ambiente em busca de respostas.
Jogabilidade para o Cinema
De fato é visível entender que um dos maiores triunfos da adaptação de jogos é trazer algo assistível e que agrade os fãs. É complicado pensar que em muitos e muitos casos isso acaba sendo o maior problema nas grandes e pequenas produções e neste caso The Exit 8 é um deles.

Por mais que o longa traga uma série de jogabilidades como ela mimetiza a interatividade do jogo original sem depender de um controle nas mãos do público. Quando o ciclo de anomalias efetivamente começa, o espectador é convidado a assumir uma postura ativa. A tensão não deriva apenas de sustos repentinos, mas do exercício contínuo de observação. Isso é até interessante, mas ao decorrer do tempo, o filme vira uma repetição sem sentido para o enredo e para os telespectadores.

Embora a jornada apresente seus percalços e muitos pesadelos, é justamente através dessas interações que o filme revela sua camada mais profunda e provocativa. Em um dos diálogos mais contundentes da trama, uma das supostas "anomalias" entrega a tese central da obra: uma crítica ferrenha à alienação contemporânea.
O roteiro sugere que, na vida real, a sociedade já se encontra confinada em um ciclo repetitivo; engolidas pela monotonia do trabalho e pelas obrigações sistêmicas, as pessoas passam a experimentar o "mesmo dia" infinitas vezes, transformando a existência em um eterno corredor de metrô.
A oitava saída: O veredito

The Exit 8 transcende sua origem nos games para se tornar uma metáfora claustrofóbica sobre a modernidade. Ao unir uma direção imersiva, a tensão constante de um quebra-cabeça visual e uma crítica social afiada sobre a rotina urbana, o longa se consolida como uma obra de suspense inteligente.
Contudo, apesar da profundidade de suas temáticas, o filme acaba se perdendo em uma repetição exagerada e em subtramas dramáticas que permanecem sem resposta. Embora a expansão do universo das "oito saídas" apresente conceitos interessantes nas entrelinhas, a obra alcançaria a perfeição se tivesse sido concebida como um curta-metragem. Nesse formato mais conciso, o impacto da transposição do jogo e o comentário social seriam preservados, evitando o desgaste narrativo que compromete o ritmo do longa. Nota: 2.5/5




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