Por Onde Vi - A Pixar precisa de uma Renascença?
- Roger Caroso
- há 3 horas
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O mundo costuma ser hostil aos novos talentos, às novas criações. O novo precisa ser incentivado... Nem todos podem se tornar grandes artistas, mas um grande artista pode vir de qualquer lugar - Anton Ego

Entre os séculos XV e XVI, um movimento cultural tomou conta da Europa, trazendo novos conceitos, reinterpretações e grandes mudanças, dando uma nova vida para a arte, arquitetura, literatura e tecnologia. Em poucas palavras, essa foi a Renascença. Agora, qual é o motivo dessa contextualização? Esse termo, que acabou representando todo esse período histórico, se tornou sinônimo de fases repletas de inspiração e valor artístico.
Assim, sobrou até para a gigante Disney precisar dessa renovação. Referência no mundo das animações desde a década de 1920, o estúdio passou por eras de ouro, com inovações tecnológicas, além de sucesso de crítica e de público, passando por clássicos como Branca de Neve e os Sete Anões (1937), Fantasia (1940), Alice no País das Maravilhas (1951) e Mogli - O Menino Lobo (1967). Este último, que não foi apenas o derradeiro longa-metragem a ter a produção do Walt Disney, mas também o maior sucesso da companhia pelas próximas duas décadas.
Os anos que se sucederam foram de altos e baixos para a empresa dos irmãos Disney. Mesmo que algumas animações tenham se tornado nostálgicas e outras tenham feito sucesso até na época, todo esse período foi visto com desapontamento e considerado como a Era das Trevas para o estúdio, abrangendo as produções lançadas de Aristogatas (1970) até Oliver e Sua Turma (1988). Entre os fracassos, esteve O Caldeirão Mágico (1984), que até ali era o filme animado mais caro da história, mas que decepcionou nas bilheterias e deu prejuízo.
Já nos anos finais de trevas, Michael Eisener tinha tomado as rédeas como CEO e trazia consigo uma abordagem que buscava resgatar a importância dos filmes animados dentro da empresa. Assim, capitaneados por Peter Schneider, Jeffrey Katzenberg e Roy E. Disney, além da concorrência de Don Bluth na Sullivan Bluth Studios e de Hayao Miyazaki com o Studio Ghibli, a divisão de animação da Disney rumou para um novo momento, a Renascença.
A dupla John Musker e Ron Clements, que já havia trazido um respiro para a empresa com As Peripécias de um Ratinho Detetive (1986) na Era das Trevas, mas em seguida deu conta de A Pequena Sereia (1989), que foi considerado como ponto de partida para a grande leva de sucessos nos anos 1990. Dos próximos nove filmes, oito estão entre os maiores acertos da história da Disney, trazendo um retorno financeiro inacreditável e sendo capazes de expandir os horizontes da animação 2D, estabelecendo um novo parâmetro para os filmes animados no ocidente. Sendo eles, A Bela e a Fera (1991), Aladdin (1992), O Rei Leão (1994), Pocahontas (1995), Hércules (1997), Mulan (1998) e Tarzan (1999).

Enquanto isso, também na Califórnia, uma empresa, que ainda brigava para se tornar de fato um estúdio após deixar o leque da Lucasfilm, evoluía as tecnologias da animação 3D, contando com o investimento de um tal de Steve Jobs. Liderada internamente pelos seus próprios artistas ao invés de executivos, a Pixar se destacou fazendo curtas e conseguiu um contrato milionário para trabalhar diretamente para a Disney. Desse acordo, sairia aquele que é considerado o primeiro longa-metragem totalmente animado por computador, Toy Story (1995) — mas não esqueçamos do filme brasileiro Cassiopéia (1996), que começou a produção ainda antes dos americanos, mas só foi lançado alguns meses depois e que foi feito inteiramente por computação gráfica, diferente dos ‘rivais’, que utilizaram rotoscopia.
Mas foi assim que os anos de ouro da Pixar começaram, as mentes de John Lasseter, Pete Docter, Andrew Stanton, Lee Unkrich e Joe Ranft estiveram envolvidas na série de filmes que seriam lançados nos anos seguintes, atingindo sucesso de todos os lados. Se utilizando das novas possibilidades provenientes da animação computadorizada, o time criativo trabalhava de forma conjunta e com foco na qualidade, sendo capazes criar projetos únicos que ressoaram imediatamente com o público.
Assim, Vida de Inseto (1998), Toy Story 2 (1999), Monstros S.A. (2001), Procurando Nemo (2003) e Os Incríveis (2004) foram responsáveis por consolidar a empresa entre as gigantes do cinema, fazendo filmes que conversavam e encantavam não só as crianças, mas também os adultos. A beleza desses universos tão lúdicos, mas que tinham um olhar tão atencioso e delicado, transformou a percepção geral sobre as animações, a ponto de que o 3D deixou de ser exceção e virou regra.

Durante todo esse período as negociações de Jobs e Eisner envolvendo os contratos da parceria entre Disney e Pixar ficaram cada vez mais complicadas, com cada lado demandando um pouco mais, seja de dinheiro, seja de autonomia. Chegando ao ponto de que a Pixar passou a procurar outras possíveis distribuidoras, enquanto a Disney criou um estúdio próprio para produzir as sequências dos filmes dá, até ali, antiga parceira.
Mas com a iminente saída de Eisener da chefia, dando lugar a Bob Iger, as conversas foram retomadas e a Disney, de uma vez por todas, comprou a Pixar no início de 2006. O estúdio não foi anexado diretamente a divisão de animação da empresa-mãe, mas sim como uma entidade separada. Daí, foram lançados outros clássicos modernos que estão consolidados na história do cinema, Carros (2006), Ratatouille (2008), WALL-E (2008), Up (2009) e Toy Story 3 (2010) — vamos combinar né, só filme incrível, num ponto em que Carros, que é bom, é o pior deles.
A década seguinte seria muito curiosa para a Pixar, foi a partir dela que as sequências passaram a tomar conta contra as produções originais. Dos próximos dez filmes lançados pelo estúdio, seis era com base em alguma outra obra anterior. Essa foi a primeira vez que alguns lançamentos da Pixar foram fortemente contestados pelo público, pela crítica ou pelos dois.
Carros 2 (2011) chocou pela falta de profundidade e mudança de tom; Valente (2012) parecia ser mais Disney do que Pixar; Mesmo que com carinho, Universidade Monstros (2013) não foi tão marcante como o original; Divertida Mente (2015) trouxe de volta a originalidade e tonalidade da era de ouro; O Bom Dinossauro (2015) se tornou provavelmente o mais esquecido já lançado pelo estúdio; Procurando Dory (2016) fez dinheiro, mas não atingiu os altos do memorável antecessor; Carros 3 (2017) foi capaz de redimir e fechar a franquia, mas com um fraco desempenho nas bilheterias; Viva: A Vida é uma Festa (2017) foi mais um frescor do que fez todos se apaixonarem pelo estúdio lá atrás; Os Incríveis 2 (2018) passou do bilhão, mas também não se firmou como o original, já Toy Story 4 (2019) se tornou uma polêmica enorme, visto que a franquia tinha ‘fechado’ perfeitamente nove anos antes.
Dá pra ver que definitivamente não foi uma década ruim, tendo vários filmes passando da marca bilionária e amor da crítica, só que as constantes sequências e alguns filmes duvidosos puseram a Pixar pela primeira vez em certas dúvidas. A resposta foi imediata, os anos 2020 começaram com sete originais, duas sequências e um spin-off, uma proporção inversa com a anterior.

Para muitos, esse momento seguinte, com Dois Irmãos (2020), Soul (2020), Luca (2021) e Red (2022) parecia o indício de novos tempos, a tão falada Renascença, só que uma tal de pandemia mandou isso por água abaixo. O desempenho comercial de todos esses foi prejudicado, ganhando um lançamento conjunto no Disney+ e gerando indignação de muita gente que trabalhou nessas obras e se sentiu desprestigiado com o lançamento via streaming. As histórias originais estavam lá, a emoção característica e os conceitos lúdicos tão relacionados a Pixar estavam lá, mas uma falta de sintonia entre público, momento e enredos, marcou a tentativa frustrada de reinventar essas produções — por mais que eu as considere, em níveis distintos, todas boas.
O próximo, Buzz Lightyear (2022), não agradou realmente ninguém. Pode não ser o pior já feito pela empresa, mas foi definitivamente um dos mais mal recebidos, considerando o quão fora de harmonia ele está com o resto das produções de Toy Story. Enquanto Elementos (2023) teve que representar toda a confiança do estúdio em obras originais nas telonas e parecia muito que iria decepcionar, iniciando com uma bilheteria fraca e críticas mistas, mas que teve muuuuuitas pernas para conquistar um bom retorno financeiro.
Para os fãs da Pixar de ideias novas, que botou os outros estúdios para correrem atrás, os dois últimos estão indicando um futuro muito estranho. Divertida Mente 2 (2024), mesmo que tenha basicamente emulado o anterior, tomou conta das salas de cinema, se tornando a maior bilheteria registrada por eles, com quase 1,7 bilhão. Toy Story 5 (2026) recentemente lançado, provavelmente teve mais apreço popular que a quarta entrada e também caminha bem para bater o bilhão.
Só que ao mesmo tempo, Elio (2025) passou por uma série de problemas internos, necessitando de várias alterações na história e teve um dos piores, senão o pior, desempenhos monetários da Pixar, entrando e saindo de cena sem alarde. Cara de Um, Fucinho do Outro (2026) não foi tão diferente, mesmo que tenha feito mais dinheiro.

Tá, mas o que tudo isso nos diz? O público só quer saber de continuação barata? Os filmes originais da Pixar não prestam? Podemos fazer esses questionamentos para o estúdio, mas não necessariamente eles são aplicados apenas aqui. Essas questões referentes às sequências permeiam todo o mundo do cinema, que hoje é completamente dependente de IPs fortes. Só que antes de se tornarem essas propriedades intelectuais gigantescas, essas histórias já foram obras originais que mostravam a capacidade da Pixar em criar mundos únicos, cheios de sentimento e que constantemente desafiam os limites da tecnologia.
Fato é, as sequências estão pagando as contas, só que repetição demais, enjoa. A Pixar agora vai continuar tentando balancear as novas ideias e mentes criativas com os produtos já consolidados. Para os próximos anos, vem aí Gatto (2027) de Enrico Casarosa (Luca), Os Incríveis 3 (2028) de Peter Sohn (O Bom Dinossauro e Elementos), Viva 2 (2029) novamente por Lee Unkrich e também Ono Ghost Market (2028) do ‘estreante’ Trevor Jimenez.
Então, sim, eu gostaria que a Pixar atingisse o nível que mostrou entre 1995 - 2010, com obra-prima atrás de obra-prima, mas sabemos muito bem que tudo isso só foi possível pelo contexto de suas épocas e que hoje definitivamente não são os mesmos. Por isso, pela minha ligação desde criança com o estúdio, espero, no futuro, ver novamente grandes histórias originais da Pixar e dizer Por Onde Vi…
