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Por Onde Vi - A Netflix precisa continuar financiando o Zerocalcare

Atualizado: há 7 dias

Aquela sensação que fica dentro da gente, no fundo do estômago. Até quando você tem certeza de que arrancou tudo, quando acha que aquilo não pode mais te ferir, ela aparece de novo só pra te ferrar. Te mata e mata de novo mil vezes em uma única vida à esperança de que, dessa vez vai dar certo - Zerocalcare
Uma arte com o personagem Zerocalcare em uma espiral
Arte por Roger Caroso

Para quem não conhece, Michele Rech, mais conhecido pelo pseudônimo de Zerocalcare, é um dos mais relevantes cartunistas da última década. O italiano se tornou referência na década como um artista independente, com forte projeção na internet.


Suas obras, tirinhas autobiográficas, passaram a conquistar toda uma geração pela forma de misturar um humor absurdista com suas crônicas diárias. A Profecia do Tatu foi o primeiro livro dele, um quadrinho que compila várias dessas histórias, mas com um fio narrativo muito claro: suas ações importam, mas você não é o centro do mundo.


Essa é uma obra sensacional e que ajudou a popularizar o trabalho dele mundo afora, inclusive no Brasil, já que temos — e felizmente me incluo nisso — essa obra em português. Já que o que poderia ser melhor do que acompanhar as frustrações gerais de um jovem adulto que projeta sua consciência em um tatu gigante?


Depois disso, Zero continuou tocando nos temas dos "jovens velhos" 30+, só que também teve a presença e mobilidade de abordar lados mais espinhosos das coisas. Esse é o tema central de Kobane Calling, que acompanha Zero em uma jornada pelo Curdistão Ocidental, vendo de perto a luta do povo sírio contra o Estado Islâmico.


Uma imagem dos livros Kobane Calling e A Profecia do Tatu
Arquivo pessoal

Isso é apenas o topo do iceberg das obras do italiano, já que, das obras traduzidas para o português, só não citei Esqueça Meu Nome, que infelizmente ainda não adquiri.

Mas é nessa toada que ele vai ganhando destaque também em outras mídias. A Profecia do Tatu teve uma adaptação live-action e Kobane Calling recebeu uma versão no teatro. Só que, em 2020, os curtas animados Rebibbia Quarantine, produzidos por ele mesmo, chamaram a atenção da Netflix.


A gigante do streaming não perdeu tempo e, no mesmo ano, assinou com ele para a produção de uma minissérie animada. Assim, quase um ano depois, no fim de 2021, fomos agraciados com Entrelinhas Pontilhadas. Esse foi o meu primeiro contato com o trabalho dele, que, já pelo trailer, me despertou um interesse gigantesco.


Imagem do personagem Zerocalcare e o Tatu
Reprodução: Netflix

A animação também tem como base A Profecia do Tatu, em que desilusões e eventualidades da vida diária de Zero são intercaladas por sua relação com uma antiga amiga por quem ele era apaixonado e por uma importante viagem para o Norte da Itália.


Tal qual o quadrinho, a adaptação tem uma capacidade impressionante de mesclar ideias totalmente absurdas e perdidas, enquanto ele vai inserindo seus conceitos de isolamento e amadurecimento.


Com o grande sucesso de crítica e público, a Netflix não tardou a encomendar uma nova série, que ganhou o nome Este Mundo Não Vai Me Derrubar. Lançada no meio de 2023 — pouco antes da criação do Moqueka —, a obra se propõe a ser mais um capítulo na vida de Zero. Não é uma continuação direta, mas tudo o que aconteceu na anterior ainda tem muito valor agregado aos personagens.


Dessa vez, nosso interlocutor dá um tom muito social ao texto. Claro, o foco são as relações interpessoais, como cada pessoa pode impactar umas nas outras, mas dando um foco gigantesco ao senso de comunidade. Os pontos polêmicos de políticas públicas e internacionais relacionados a refugiados recebem destaque, ao mesmo tempo que vemos a solidão e a dureza de alguém sem rumo.


Imagem promocional de Não Tem Dinheiro que Pague, com o personagem Zerocalcare caindo em meio a estilhaços de vidro
Reprodução: Netflix

Pouco mais de dois anos depois, fomos presenteados com o anúncio de uma terceira série, Não Tem Dinheiro Que Pague. Lançada pouco menos de um mês atrás, a obra entra como essa atualização da vida dos personagens, ao mesmo tempo que somos apresentados a diversas storylines que vão se encontrando pelo caminho.


Nesse novo momento, Zero aceita ser sócio de um bar com um amigo que se enfia em um mundo de dívidas perigosas com gente muito duvidosa. Ao mesmo tempo, ele aceita abrigar temporariamente uma antiga crush após ela passar por mais um caso de violência doméstica.


Como dá para ver, os temas não são leves. Os relacionamentos, em suas mais distintas formas, são novamente o foco. As barreiras que cada um cria para si, a dificuldade de quebrar ciclos e a importância de uma rede de apoio. Zero não se abstém de falar sobre nada, mas definitivamente mantém a capacidade de abordá-los de formas únicas, utilizando-se de éticas que provavelmente não vão trazer respostas definitivas, mas perguntas muito pertinentes.


Ou seja, espero, de verdade, que esses "encontros" a cada dois ou três anos continuem. Que a Netflix siga dando a possibilidade de Zero abordar suas problemáticas da forma mais surtada possível. Então, quem sabe, daqui a uns anos, eu volte aqui para dizer novamente: Por Onde Vi...


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