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O Cinema Latino-americano e as fronteiras invisíveis na arte

Olhar para o cinema produzido na América Latina é, inevitavelmente, não pensar nas fronteiras e na identidade dos povos que vivem nelas. Afinal, as linhas invisíveis são consideradas as principais rupturas que delimitam muito mais do que territórios geográficos; demarcam abismos sociais, barreiras culturais e zonas de resistência histórica. Longe de adotar as fórmulas higienizadas e os finais previsíveis do circuito comercial hegemônico, as produções do nosso continente utilizam a urgência das nossas realidades como matéria-prima para criar uma estética visceral, autêntica e profundamente política.

Falar em "Cinema de Fronteira" e "Identidade Latino-Americana" é mergulhar em narrativas onde o espaço geográfico molda o destino dos corpos. Para compreender a força e a pluralidade desse olhar, o Moqueka preparou uma curadoria essencial com cinco obras indispensáveis. Prepare a tela, sintonize o olhar e acompanhe as nossas indicações:

1. Bacurau (2019)

Brasil

Onde a fronteira se faz presente: A fronteira aqui é geopolítica e cultural, o contraste escrachado entre o Nordeste esquecido e o olhar imperialista estrangeiro.

  • A trama: Um pequeno povoado no sertão brasileiro some misteriosamente dos mapas de satélite após a morte de sua matriarca. Logo em seguida, a comunidade percebe que está sob o ataque de um grupo de estrangeiros armados.

  • Por que assistir: É uma obra-prima de gênero que mistura faroeste e ficção científica distópica. O filme funciona como uma metáfora visceral sobre resistência, soberania nacional e o orgulho da memória comunitária face à opressão externa.

2. Monos (2019)

Colômbia


Onde a fronteira se faz presente: A fronteira física e psicológica do isolamento nas montanhas e na selva inóspita, longe de qualquer civilização.

  • A trama: Nas montanhas remotas da Colômbia, oito adolescentes armados que fazem parte de um grupo guerrilheiro clandestino chamado "A Organização" cuidam de uma refém americana e de uma vaca leiteira consubstancial para a sobrevivência deles.

  • Por que assistir: Com uma fotografia hipnotizante e uma trilha sonora perturbadora, o filme desconstrói a identidade da juventude moldada pela violência crônica de conflitos armados que marcam a história da América Latina.

3. O Abraço da Serpente (2015)

Colômbia/ Venezuela/Argentina

Onde a fronteira se faz presente: A barreira temporal e colonial entre o homem branco "civilizado" e a cosmovisão indígena na imensidão da Amazônia.

  • A trama: Contada em dois tempos diferentes (1909 e 1940), a história acompanha a relação entre Karamakate, um xamã amazônico. O último sobrevivente de seu povo, e dois cientistas estrangeiros que buscam uma planta sagrada e curativa.

  • Por que assistir: Filmado em um preto e branco exuberante, o longa subverte o olhar eurocêntrico de exploração e dá o protagonismo à perspectiva indígena, escancarando o apagamento cultural e o impacto devastador do ciclo da borracha na região amazônica.

4. Sin Nombre (2009)

México / Honduras


Onde a fronteira se faz presente: A fronteira geográfica literal entre o México e os Estados Unidos, cruzada por quem busca sobrevivência.

  • A trama: Uma jovem hondurenha que tenta migrar com a família para os EUA cruza caminhos em cima de um trem de carga (conhecido como La Bestia) com um jovem membro da violenta gangue Mara Salvatrucha, que está fugindo do seu próprio grupo.

  • Por que assistir: Um retrato cru, tenso e humanizado sobre o drama humanitário da migração centro-americana, a violência das gangues transnacionais e a busca desesperada por um recomeço em meio ao perigo constante.

5. Temporada de Patos (2004)

México


Onde a fronteira se faz presente: A fronteira invisível do tédio urbano e a transição psicológica da infância para a adolescência.

  • A trama: Dois adolescentes de 14 anos planejam passar um domingo pacato jogando videogame em um apartamento na Cidade do México. A rotina cai por terra quando a luz acaba, o entregador de pizza cobra o atraso do pedido e uma vizinha invade o espaço para assar um bolo.

  • Por que assistir: Uma escolha esteticamente belíssima (também em preto e branco) que mostra o outro lado da identidade latino-americana: o cotidiano das nossas metrópoles. É uma comédia minimalista e melancólica, inspirada no cinema da Nouvelle Vague, sobre solidão urbana e amadurecimento.


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