Dragon Ball finalmente pode ter uma nova história boa
- Alan Pinheiro

- há 1 dia
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Poucas franquias na história da cultura pop possuem o peso, a influência e o legado de Dragon Ball. A obra de Akira Toriyama não apenas definiu o que entendemos hoje pelo gênero shounen, mas também moldou a infância e a adolescência de diferentes gerações ao redor de todo o globo. No entanto, tornou-se praticamente impossível ignorar que a série está presa em um ciclo engessado e previsível durante muito tempo. Mas, surpreendentemente, o horizonte dos videogames acaba de trazer uma esperança real de mudança.
O mangá original de Dragon Ball foi lançado no Japão em 20 de novembro de 1984 na revista Weekly Shōnen Jump. A história acompanhava uma criança com cauda que explorava o mundo das artes marciais com seus amigos. O nível de poder era contido e a necessidade de estratégia e treinamento eram diferenciais nas batalhas.
Com o crescimento de Goku, a escala de poder cresceu exponencialmente com a introdução de alienígenas. Dos quatro grandes arcos da série Z, três tiveram elementos de fora do planeta. Essa é a era mais conhecida de Dragon Ball e introduziu as transformações de Super Saiyajin.

Depois, a história continuou em mais três séries: GT, Super e Daima. Nenhuma das tramas se conecta entre si. Na verdade, é como se fossem universos alternativos diferentes, já que existem retcons feitos, principalmente para descredibilizar o GT.
Apesar de todo o estrondoso sucesso comercial que a marca mantém, a evolução narrativa da história estagnou de forma preocupante. Chegou um ponto crítico em que a superação de um grande desafio deixou de exigir estratégia, sacrifício genuíno ou verdadeiro desenvolvimento psicológico dos personagens.
Uma nova cor, um novo poder
A resolução da trama em Dragon Ball tornou-se refém de uma única variável: qual seria a nova cor de cabelo desbloqueada dessa vez? O que antes era um momento de catarse, como a fúria de Goku ao ver Kuririn morrer, transformou-se em uma banalidade. Cabelo amarelo, vermelho, azul, prateado, roxo, cinza e branco... a paleta de cores se esgotou, e a narrativa seguiu o mesmo caminho.
A cada novo arco, especialmente depois da conclusão da Saga Boo no final de Dragon Ball Z, o enredo foi ficando cada vez mais raso. Tudo o que veio depois soou como uma fórmula comercial sendo seguida à risca: surge um inimigo absurdamente forte, os heróis apanham, treinam por alguns dias (geralmente em uma sala do tempo), Goku ou Vegeta gritam mais alto, o cabelo muda de cor, e o vilão é derrotado. O risco de morte perdeu o peso, as Esferas do Dragão banalizaram as consequências, e a franquia se tornou um ciclo fechado de repetições confortáveis.

Esse desgaste criativo transbordou violentamente para a mídia interativa. Por décadas, ser fã de jogos de Dragon Ball significava pagar, a cada geração de consoles, para jogar absolutamente a mesma história.
Raditz chega à Terra e sequestra Gohan; Goku se sacrifica com o Makankosappo de Piccolo; o treinamento no Outro Mundo; a invasão de Nappa e Vegeta; a viagem a Namekusei; a transformação emocionante contra Freeza; a chegada do Trunks do Futuro; a Saga dos Androides e Cell; e a batalha final contra Majin Boo.
De Budokai a Tenkaichi, passando por Xenoverse 1 e 2 até o recente Kakarot, recontar a Saga Z repetidas vezes virou a regra inquebrável da indústria. O universo riquíssimo concebido por Toriyama foi reduzido a um mero museu virtual. Os jogadores não eram convidados a explorar o futuro, mas sim a reprisar um passado glorioso infinitas vezes, gerando um cansaço inevitável até nos fãs mais fervorosos.
A promessa de um novo Dragon Ball
É exatamente por esse vasto histórico de comodismo que o anúncio de Dragon Ball Xenoverse 3 chega como uma verdadeira revolução. A grande promessa deste novo título não é um gráfico fotorrealista ou um elenco de trezentos personagens idênticos, mas sim algo que a franquia temia fazer: uma história totalmente original, sem a presença dos personagens já conhecidos.

Essa decisão narrativa é o respiro que o mundo de Dragon Ball implorava. Tirar Goku, Vegeta, Piccolo e o elenco clássico dos holofotes (e até dos bastidores) é uma jogada de mestre que abre portas para possibilidades maravilhosas. Finalmente, há a oportunidade de provar ao mundo que a franquia pode ser muito mais do que a figura onipresente de Goku.
O universo criado pela obra possui dezenas de planetas inexplorados, doze universos distintos, patrulheiros do tempo, anjos, deuses da destruição, demônios do reino das trevas e uma variedade imensa de raças. Há material de sobra para sustentar dramas complexos, alianças políticas, dilemas morais e aventuras inéditas que não dependam de um Saiyajin criado na Terra para serem resolvidos.
Acima de tudo, essa reinvenção de Xenoverse 3 tem o poder de resgatar o espírito de algo que os fãs aguardam há mais de trinta anos: a passagem de bastão.
Durante o clímax da Saga Cell, a obra deixou claro que Gohan assumiria o protagonismo, amadureceria e levaria a história de proteção da Terra adiante, honrando o sacrifício de seu pai.

Essa promessa, contudo, foi covardemente revogada pelo conforto do status quo. Goku foi trazido de volta dos mortos, Gohan foi escanteado para um papel secundário cômico, e a passagem de manto nunca foi entregue, nem mesmo no encerramento oficial de Dragon Ball Z. A franquia se recusou a crescer junto com seu público.
Ao estabelecer um cenário onde novos protagonistas devem assumir a linha de frente para salvar a existência, Xenoverse 3 realiza, de forma indireta, essa tão aguardada passagem de bastão. A responsabilidade agora não é da família de Goku, mas sim de uma nova geração de guerreiros (e do próprio jogador). Se executada com a profundidade que o conceito exige, essa nova história não apenas honrará a vastidão do legado de Akira Toriyama, mas finalmente provará que o universo de Dragon Ball tem vida própria, e que não precisa de mais tinturas de cabelo para ser genuinamente emocionante de novo.




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