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Crítica | Cara-de-Barro é respiro em um gênero extremamente saturado

há 19 minutos
4 min de leitura
Cara-de-Barro

Alguns podem até se espantar com o que vou dizer, mas Homem de Ferro (2008) foi o primeiro filme que assisti em uma sala de cinema. Lembro-me de ter ficado assustado logo na sequência inicial com a imagética bélica e a presença dos terroristas, me escondendo na poltrona com medo. 18 anos depois, Cara-de-Barro (2026) me causou um incômodo visceral que eu não sentia em um filme de super-heróis desde quando perdi a inocência da infância.


No novo longa-metragem do universo cinematográfico da DC, a história gira em torno de Matt Hagen (Tom Rhys Harries), um ator em ascensão que tem o rosto tragicamente desfigurado após irritar um mafioso de Gotham na mesma noite em que comemorava sua indicação ao Oscar. Sem papéis, sem dinheiro e jogado ao esquecimento, Hagen busca um tratamento experimental com a Dra. Caitlin Bates (Naomie Ackie) para tentar recuperar a vida que perdeu e executar sua vingança contra aqueles que arquitetaram sua queda.


Essa nova trajetória de ascensão e ruína de Matt Hagen casa muito bem com o momento vivido pelos fãs de quadrinhos nas telonas. Quando o MCU se tornou um fenômeno global da cultura pop, acabou definindo os clichês e as convenções que passaram a reger essas produções — que tentam articular a linguagem cinematográfica com o interesse comercial em uma balança que pende descaradamente para o segundo lado. A repetição da fórmula e a falta de disposição para a experimentação foram desgastando o gênero, que hoje se encontra à beira da exaustão.


Cara-de-Barro

Cara-de-Barro tenta ir na contramão da manada. Desde o início, o filme se vendeu como uma história de terror — mais especificamente de body horror — e abraça essa proposta sem pudores para construir uma tragédia. Da mesma forma que aquele pavor sentido aos quatro anos de idade me fez tentar desviar o olhar da tela, o novo longa da DC aposta em momentos grotescos que exploram o limiar da violência gráfica. Não se trata de uma obra insuportavelmente pesada, mas o diretor James Watkins consegue provocar uma agonia genuína, especialmente na marcante sequência do avião.


Quando assisti a Não Fale o Mal (Speak No Evil, 2024), considerei-o um dos piores filmes do seu ano de lançamento. Primeiro pelo abandono da atmosfera sufocante da obra original dinamarquesa e, segundo, pela falta de criatividade da direção. Aqui, Watkins retorna com a missão de adaptar um roteiro concebido originalmente por Mike Flanagan e Hossein Amini. Fica evidente a marca de Flanagan na construção do trauma e da tragédia, mas é impossível saber o quanto desse roteiro original sobreviveu. Embora o ponto alto esteja justamente nas cenas em que o protagonista abraça seu lado monstruoso, há um certo desleixo quando a narrativa precisa explorar a persona humana do personagem.


Não é um trabalho ruim, longe disso. No entanto, a perda gradual da humanidade de Hagen poderia ter sido retratada com metáforas visuais menos óbvias e um trabalho mais expressivo de luz e câmera. Nesses dois aspectos técnicos, a direção opera da forma mais protocolar possível. Jogar na zona de segurança funciona, mas impede que a obra transcenda seu escopo original — que é, no fim das contas, ser o filme de um vilão do "escalão B" do Batman.


Cara-de-Barro

Mesmo com essas ressalvas, é gratificante ver um vilão capaz de se passar por qualquer pessoa e alterar o próprio corpo ter seus poderes explorados sem covardia. Quer dizer, a sequência da boate deixa o body horror um pouco de lado para se render a uma cena de ação convencional para maiores de 18 anos. É uma exceção, mas esse desvio me incomoda por esquecer do horror justamente no clímax. Porém, tirando esse deslize, vemos Matt Hagen aprender os limites de sua nova condição e usar esse domínio de forma bastante inventiva.


Tom Rhys Harries é uma verdadeira estrela. Em filmes estruturados como um estudo de personagem, é fundamental que o ator principal entregue todas as nuances exigidas pelo papel, já que os holofotes estão permanentemente voltados para ele. Nesse contexto, o Matt Hagen de Harries carrega com maestria o dilema moral de esconder quem realmente é, algo que se desdobra organicamente ao longo da trama.


Cara-de-Barro

O elenco de apoio não ganha o mesmo destaque, com exceção de Naomie Ackie. A dinâmica ambígua e o romance que surge entre a médica e o paciente são pontos altos, ainda que a personagem merecesse um desenvolvimento mais profundo — ficando mais exposta ao dilema ético em que se meteu. Afinal, a cientista acaba criando um vilão de Gotham, e isso quase não acarreta consequências para ela além do desfecho.


Por sua vez, o mafioso antagonista não passa de uma caricatura frágil do submundo de Gotham. Existem tantos chefes do crime carismáticos na mitologia do Homem-Morcego que ver apenas mais um soa engessado. Ainda que tudo fora da jornada do protagonista seja acessório, o fato da história estar inserida em um universo compartilhado abria margem para criar uma figura mais condizente com o peso da cidade.


Gotham, inclusive, carece de personalidade própria aqui. Não que isso estrague a jornada do Cara-de-Barro, mas falta um cuidado em traduzir visualmente essa metrópole tão singular nos quadrinhos. Quanto ao visual definitivo do monstro, ele só ganha a tela de forma plena na cena final. No restante da projeção, há apenas um flerte pontual com essa estética grotesca, com a clara intenção de sustentar Matt Hagen do monstro que apareceu anteriormente na série Comando das Criaturas.


Cara-de-Barro

Cara-de-Barro se consolida como um experimento imperfeito, mas indiscutivelmente necessário para o atual momento do cinema de super-heróis. Ao priorizar a tragédia física e a deformidade sobre os costumeiros espetáculos de efeitos visuais genéricos, o filme resgata uma sensação de repulsa e estranhamento que há muito tempo havia sido pasteurizada pela indústria. 


É claro que os tropeços de direção e o desinteresse em construir um ecossistema mais rico ao redor do protagonista impedem que a obra alcance um patamar maior. Contudo, ao dar espaço para que Tom Rhys Harries entregue uma performance visceral e ao abraçar o body horror, o longa ganha vida como esse respiro dentro dos filmes de heróis. Mais do que uma simples origem de vilão, o filme deixa uma fagulha de esperança de que os blockbusters de bonecos ainda podem ousar desviar da curva.


Nota: 3,5/5



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