LISTA | 7 músicas que marcam o encontro de Minas e Bahia que você precisa conhecer
- Gabriel Pina (Convidado)

- há 20 horas
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Velho Chico, comida boa e cenários naturais marcantes. Quem conhece sabe que Bahia e Minas Gerais são, de certo modo, bem parecidas. Mas, as regiões não abrem mão de seus respectivos jeitinhos únicos. E na música não seria diferente. Historicamente, ambos os estados são tidos como o berço de artistas, produtores e ritmos que impactam o mercado fonográfico nacional, muitas vezes alterando o consumo de música no Brasil.
No entanto, quando Bahia e Minas resolvem se cruzar, a química não poderia ser outra: álbuns vanguardistas, canções que marcaram gerações e encontros de vozes que se eternizaram na cultura nacional. Com isso, o Moqueka selecionou as 7 vezes em que a música baiana e a música mineira tiveram um flerte fatal. Confira!
Ary Barroso e Dorival Caymmi - Um interpreta o outro (1958)
Começamos a nossa lista com o encontro de dois mestres da música brasileira. Em 1958, o produtor musical Aloysio de Oliveira, considerado figura chave para a internacionalização da música nacional (chegando a trabalhar com Carmen Miranda, em seu auge em Hollywood) procurou os sócios da gravadora Odeon para propor o chamado “o encontro musical do ano”, que consistia em unir Ary Barroso e Dorival Caymmi em um único disco. E veja bem, para entender o impacto do projeto, é importante saber quem era Barroso e Caymmi naquele período.
Ary Barroso já havia se consagrado tanto no mercado brasileiro, quanto internacional, como uma das grandes vozes da música. O mineiro, natural de Ubá, região sul do estado, era o autor de canções como “Aquarela do Brasileiro”, de 1939 e “Isto Aqui o Que É?” de 1941, que ganharam enorme sucesso na saudosa era de ouro do rádio. Já Dorival Caymmi também tinha feito história na música. Naquela altura, os discos “Canções Praieiras”, de 1954 e “Caymmi e o Mar”, de 1957, eram ouvidos dentro e fora do Brasil, levando a voz e as histórias da Bahia para patamares nunca antes atingidos.
Nesse sentido, a ideia, no mínimo ousada, acabou chamando atenção dos executivos da Odeon, que decidiram apostar no projeto, dando carta branca para Aloysio. Assim, com Caymmi na voz e violão, acompanhando as composições de Ary, que por sua vez tocava em seu piano os clássicos do baiano, chegava ao mercado o disco “Ary Barroso e Dorival Caymmi: um interpreta o outro”, que além de consagrar o encontro das duas lendas da música, é também considerado um dos primeiros “feats” entre artistas no Brasil.
Milton Nascimento - Ponta de Areia (1974)
É impossível falar de música e principalmente de música mineira sem deixar de mencionar Milton Nascimento (o que justifica a constante presença dele ao longo desta lista). Mas, além disso, Bituca é o responsável por eternizar a triste história de destruição do caminho de ferro “que ligava Minas ao porto, ao mar”.
Inaugurada em 1881, a Estrada de Ferro Bahia e Minas (EFBM) era um importante canal que ligava a cidade de Araçuaí, na região do Vale do Jequitinhonha, ao distrito de Ponta da Areia, no sul da Bahia. Na época, a obra foi considerada um avanço fundamental para a economia dos dois estados, além de permitir uma rota direta entre os vales de Minas com o litoral baiano. De acordo com o jornal “Estado de Minas", só em 1940, a “Bahiminas” (nome que era popularmente conhecida) transportou cerca de 373 mil pessoas.
Mas, nos anos 60, com a expansão do projeto rodoviário fruto do governo do presidente Juscelino Kubitschek e o subsequente desuso das rotas férreas, o trecho foi abandonado, o que resultou na retirada dos trilhos e no esquecimento das estações, tempos antes tão movimentadas. Nesse sentido, Fernando Brant, junto com Milton, resolvem rememorar os cenários de vazio deixados com o fim da Bahiminas na canção “Ponta de Areia”, presente no álbum “Minas”, de 1974.
“Caminho de ferro Mandaram arrancar Velho maquinista Com seu boné Lembra o povo alegre Que vinha cortejar”
Clara Nunes - Ijexá
Considerada a mineira mais baiana de todos os tempos, Clara Nunes é uma figura no mínimo emblemática. Natural de Caetanópolis, cerca de uma hora da capital Belo Horizonte, a artista foi sem dúvidas uma das grandes figuras do samba brasileiro. Mas, curiosamente, foi cantando boleros que ele deu início a sua carreira, com seu primeiro disco “A Voz Adorável de Clara Nunes”, lançado em 1965. No entanto, por pressões da gravadora, a mineira é obrigada a ir atrás de um hit para as rádios. Nesse sentido, o sambista Ataulfo Alves sugere que a Clara cante samba. Do encontro, surge a faixa “Você Passa e Eu Acho Graça”, que atingiu o topo das paradas.
Com o sucesso, Clara é convidada para tocar em Luanda, na Angola. E é nessa viagem, que a artista passa a incorporar elementos da cultura e religiosidade afro-brasileira em sua estética e sonoridade, numa espécie de resgate em que a pesquisadora da PUC-SP Mariana de Toledo Soares, vai tratar como fundamental para o processo de “reafricanização” do samba, naquele tempo fortemente atrelado a bossa nova.
Com isso, diversas faixas da cantora podem ilustrar a conexão com a Bahia. No entanto, em “Ijexá”, presente no disco “Nação”, de 1982 ( sendo este o último lançamento da cantora, antes de sua morte em 1983) Clara mais que nunca traz ao seu público esse resgate. Usada para nomear um gênero musical que surge associado ao candomblé, Ijexá consegue espaço na Música Popular Brasileira através da voz da sambista.
Com uma letra carregada de referências diretas a cultura baiana, como o bloco “Afoxé Filhos de Gandhi”(sendo posteriormente adotada no repertório do grupo), a música faz questão de referenciar a origem do ritmo pelo povo Iorubá, na Nigéria. O resultado foi um sucesso quase instantâneo, rendendo a gravação de um clipe para o programa “Fantástico”, que se passa em locais clássicos de Salvador, como o Elevador Lacerda, a ladeira do Pelourinho e o Farol de Itapuã.
Gilberto Gil e Skank - Vamos Fugir
Fruto da parceria entre Gilberto Gil a banda de Bob Marley “The Wailers”, “Vamos Fugir” foi composta durante uma viagem de Gil à Jamaica e se tornou carro-chefe da fase reggae do baiano, que apesar de já ter sido explorada anteriormente, nos anos 70, em álbuns como “Refavela”, de 1977 e “Realce”, de 1979, assume de vez o protagonismo na carreira do artista no início dos anos 80. Lançada em 1983, no LP “Raça Humana”, a canção é considerada uma das clássicas da discografia de Gil, conseguindo inclusive embalar o exigente público roqueiro da primeira edição do “Rock in Rio”, em 1985.
No entanto, 21 anos depois, a banda mineira Skank resgata a música, introduzindo os versos do baiano a uma nova geração de ouvintes. Single do álbum “Radiola”, de 2005 (que trazia um compilado de hits da banda, com duas faixas inéditas) a versão do Skank incorpora novos arranjos de baixo e guitarra, característico do som rock feito pelos mineiros, com suingue reggae da versão original. Na época, a faixa atingiu o topo das rádios brasileiras por semanas, chegando a levar o Prêmio Multishow 2005 de “Música do ano”.
Posteriormente, em entrevista, Gilberto Gil chegou a brincar comentando que prefere a versão do Skank do que a sua própria, o que rendendo uma versão inédita com os dois artistas, lançada em 2025.
Jammil e Uma Noites - Axé Minas
Minas Gerais foi (e de certo modo, ainda é) um importante mercado para a axé music. Nos anos de 1990, com a expansão do ritmo para o Brasil, Minas concentrou muitos consumidores do gênero, fazendo o estado se tornar rota carimbada para a turnê das bandas, como a Cheiro de Amor, Eva, Mel, entre outras. Com a demanda do público, o mercado de axé se tornou um terreno fertil para as produtoras mineiras, que logo capitalizaram em cima do gênero.
É nesse sentido que, em 1999, surgia em Belo Horizonte, o festival “Axé Brasil”. Logo nos primeiros anos, o evento virou o maior do gênero em todo o país, chegando a ter em seu auge um público de mais de 60 mil pessoas em um único dia. O apelo do evento era tão forte que na edição de 2011, os 80 mil metros da Esplanada do Mineirão, onde até então ocorria o festival, precisou ser substituído pelo espaço de um autódromo em Santa Luzia, região metropolitana de BH, com mais de 500 mil metros, que recebeu o nome de “Cidade da Fólia”.
Dentre os diversos artistas baianos que se apresentaram no festival, a banda Jammil e Uma Noites foi a que recebeu mais destaque. A música “Sou Praieiro” se tornou hino do evento e uma das mais reproduzidas em Minas Gerais no período (e que até hone marca presença nos trios do carnaval de rua de BH). Em retribuição ao sucesso nas terras mineiras, a banda gravou a faixa “Axé Minas”, onde celebra a mistura cultural entre os dois estados.
“Veja que Belo Horizonte
Que se vê em Salvador
Veja que felicidade nos olhos da cidade
Minas hoje é
Bahia do nosso senhor”
Lamparina e ATTOOXXA - Pequim
Uma banda alternativa de Belo Horizonte cantando pagodão baiano? Temos! Mas antes de chegar nesse encontro, é importante contextualizamos o que estava rolando nas cenas musicais de Bahia e Minas em meados dos anos de 2010. Fundada em 2016, fruto da união de duas bandas universitárias de BH, a “Lamparina e a Primavera” (nome da banda até 2021) surgia em um momento de efervescência cultural na capital mineira. Naquele período, artistas como Djonga e Marina Sena, na época vocalista da Outra Banda da Lua e do grupo Rosa Neon, começavam a despontar com seus trabalhos pelo Brasil. Além disso, a cidade se abria ainda mais para uma vida cultural urbana, com o surgimento de festas e eventos que vão dominar as noites de “belorihills”.
No mesmo período, a vida cultural baiana também encarava a chegada de novos nomes para a cena musical. É nesse momento que o grupo ÀTTØØXXÁ surge, misturando todo suinge do gênero com os beats do soundsystem e da música eletrônica, conquistando projeção nacional ao lado de Luedji Luna e do DJ Mulú na música “Tô Te Querendo”, além de parcerias com artistas de todo o país.
É daí que surge o encontro dos dois grupos na faixa “Pequim”, de 2021. O projeto, que acumula quase 6 milhões de plays apenas no Spotify, marca uma verdadeira mistura do que os mercados da música mineira e baiana tinham de mais quente naquele momento.
Gal Costa e Marina Sena - Para Lennon e McCartney
Chegamos ao último encontro da lista com uma das parcerias mais bonitas da música brasileira. Considerada uma das maiores vozes do país pela revista Rolling Stone, Gal Costa é a “Mãe de todas as vozes”, título dado por Emicida na letra da faixa de mesmo nome, presente no disco “A Pele do Futuro”, de 2018. Nesse sentido, entre as novas figuras da música, não é exagero apontar que Marina Sena é uma das filhas prodigio da baiana.
Natural da cidade de Taiobeiras, no norte de Minas, a então jovem cantora esbarrou com a discografia de Gal, e segundo ela mesma, passou a se entender como artista a partir daí, deixando claro que Gal é e sempre será sua referência mor no ofício. Tamanha admiração justifica o nervosismo de Marina quando em 2022, se viu frente a frente da eterna musa tropicalista para a gravação de uma nova versão da música “Para Lennon e McCarteney”, lançada originalmente por Milton Nascimento no seu disco de 1970 “Milton”. Na atualização, as cantoras dividem os versos:
“Eu sou da América do Sul
Eu sei vocês não vão saber
Mas agora sou cowboy
Sou do Ouro, eu sou vocês
Sou do mundo
Sou Minas Gerais”
Além disso, ao fim da faixa, são incorporados elementos da canção “O Vento”, de Dorival Caymmi, regravada em 1976 por Gal no LP “Gal Canta Caymmi”.
O encontro marca um momento de conexão entre as duas vozes que embalam gerações, algo celebrado pela própria Gal, em entrevista nos bastidores. Mas, o projeto ganha ainda mais impacto, uma vez que o registro é a última gravação inédita de Gal Costa, que morreu em novembro daquele mesmo ano.








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