De Satoru Gojo a Mahoraga: Entenda as referências budistas em Jujutsu Kaisen
- Artur Soares

- 2 de jul.
- 4 min de leitura

Jujutsu Kaisen conseguiu se consolidar como um dos animes mais populares da atualidade. A trama, que acompanha o jovem Itadori Yuji após entrar em uma escola especializada na formação de feiticeiros, conquistou o público com sua ação frenética. Nesse universo, o objetivo principal é exorcizar maldições — monstros criados a partir das emoções negativas humanas.
Na jornada ao lado de Megumi Fushiguro, Nobara Kugizaki e o carismático Satoru Gojo, somos apresentados a um sistema de magias complexo. Mas o que muita gente não sabe é que grande parte dos elementos de Jujutsu Kaisen são diretamente inspirados no budismo.
Confira como essa filosofia milenar se conecta com os personagens e poderes da obra.
Os Mudras e as Expansões de Domínio
Na feitiçaria de Jujutsu, a técnica suprema é a Expansão de Domínio, a materialização física do território mental e espiritual do usuário. Para ativá-la, feiticeiros e maldições de alto nível precisam realizar um selo de mão.
Na vida real, dentro das práticas budistas, esses selos são chamados de mudras e são normalmente utilizados para canalizar energia vital durante a meditação. No anime, a maioria dos mudras carrega uma forte conexão com o budismo. O próprio protagonista, Itadori Yuji, utiliza o mudra de Kshitigarbha, que é considerado o guardião das crianças e dos viajantes na tradição budista.
Satoru Gojo: A Jornada do Buda
Existem paralelos fortíssimos entre Satoru Gojo e Sidarta Gautama, o primeiro homem a conseguir o título de Buda. O budismo retrata o nascimento de Sidarta como um evento predestinado, assim como Gojo é descrito desde o seu nascimento como "alguém que mudou a balança do mundo".
As semelhanças não param por aí:
Após dominar a energia amaldiçoada reversa, Gojo proclama: "Entre os céus e a terra, eu sou o mais honrado", uma frase historicamente associada ao Buda.
Ironicamente, Gojo só atinge a iluminação após entender que existem coisas completamente fora de seu controle, o que também é um dos requisitos para se chegar à iluminação no budismo.
Toji Fushiguro e o Rei Macaco
No universo de Gege Akutami, humanos sem energia amaldiçoada são frequentemente comparados a macacos. Toji Fushiguro não possuía energia alguma e sofria o desdém de seu próprio clã por isso. Em compensação, ele desenvolveu uma força física descomunal, tornando-se, em essência, o "rei dos macacos".
Isso é uma alusão direta a Jornada ao Oeste, um épico chinês de forte influência budista. Na história, conhecemos Sun Wukong, um rei macaco extremamente forte e tratado com desdém pelo Reino dos Céus. As armas também se conectam:
Toji utiliza a "Nuvem Brincalhona", um bastão que se divide em três partes e altera seu tamanho.
Sun Wukong é associado à sua nuvem mágica voadora e a um bastão capaz de mudar de tamanho.
No conto original, Wukong só é derrotado quando o próprio Buda decide parar sua rebelião. No anime, Gojo só consegue matar Toji após encontrar a sua iluminação (tornando-se, simbolicamente, Buda).
Suguru Geto: O Falso Messias
Apresentado como o exato oposto de Gojo — tanto no cabelo quanto nas vestimentas e ideais —, Suguru Geto sofreu um trauma após enfrentar Toji, o que o levou a uma "iluminação perversa". Enquanto Satoru se tornou um professor (um bodhisattva que guia a nova geração de feiticeiros), Geto decidiu destruir os não-feiticeiros, criando um culto onde é adorado como um deus.
Bodhisattva é um termo central no Budismo Mahayana usado para descrever alguém iluminado que auxilia outros a chegarem ao nirvana. De formas distintas, ambos podem ser considerados bodhisattvas na obra.
A iconografia de Geto deixa clara sua natureza deturpada:
Ele utiliza os mesmos alargadores de orelha de Buda.
Na capa do capítulo 70 do mangá, ele aparece fazendo mudras de Buda com as posições invertidas e "iluminando" maldições, reforçando que ele é uma "falsa divindade" de ideais distorcidos.
Megumi, Mahoraga e o Dharma
Megumi Fushiguro utiliza a Técnica das Dez Sombras, que permite invocar dez shikigamis (criaturas místicas), habilidade inspirada nos Dez Tesouros Sagrados do xintoísmo. O seu mudra de expansão de domínio, porém, é ligado a Bhaisajyaguru, o Buda da Medicina, que no Budismo Mahayana representa a cura para os sofrimentos.
O shikigami mais letal de Megumi carrega muito simbolismo em seu nome completo: Eight Handled Sword Divergent Sila Divine General Mahoraga.
A Espada e o Desvio Moral: A referência à "espada de oito mãos" remete a um dos tesouros xintoístas. A parte "Divergent Sila" indica alguém que se afastou do Sila — o pilar budista da moralidade. Como a primeira regra do Sila é "não matar", Mahoraga se torna um "divergente" justamente por ser uma arma suprema de destruição.
O General Divino: O Buda da Medicina é protegido por doze generais divinos, e um deles chama-se justamente Mahoraga.
Dharmachakra: O shikigami carrega sobre a cabeça a roda do dharma, o símbolo mais antigo do budismo que representa a harmonia cósmica. Seus oito raios representam o Nobre Caminho Óctuplo, as oito práticas ensinadas por Buda para atingir o nirvana.
Expansões e o Budismo Mahayana
Outras entidades do anime também refletem essa religião. Antes das traduções oficiais, a expansão de domínio da maldição Mahito era traduzida como "Prisão Mahayana". O visual da técnica remete a Kuan Yin, o bodhisattva do amor incondicional e da compaixão, frequentemente representado com mil mãos.
Já a expansão do antagonista Dagon, o "Horizonte do Skandha Cativante", referencia o conceito budista de Skandha, que são os cinco agregados formadores da existência e da identidade humana: o corpo, a sensação, a percepção, as formações mentais e a consciência.




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