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CRÍTICA | A Odisseia de Nolan exala uma continuação de Oppenheimer

A Odisseia de Nolan exala uma continuação de Oppenheimer

Sem dúvidas, quando a literatura ocidental encontra a grandiosidade do cinema moderno, o resultado se torna ÉPICO. Por isso, "A Odisseia", um dos mais antigos e reverenciados poemas épicos atribuídos a Homero, ganha vida nas telonas. A obra traz a clássica mitologia grega para uma nova geração de espectadores, transformando uma narrativa milenar em uma experiência visual e emocional imersiva — ou, pelo menos, é o que se espera quando se fala de Nolan.


Após o fim da brutal Guerra de Troia, o herói grego e rei de Ítaca, Odisseu, embarca em uma jornada épica e implacável de volta para o seu lar. Durante o seu longo trajeto, o guerreiro é testado ao limite, enfrentando a fúria dos deuses e os perigos de criaturas míticas.


Em sua trajetória de sobrevivência, Odisseu precisa usar toda a sua inteligência e força ao esbarrar com seres aterrorizantes e místicos, como o gigante Ciclope Polifemo, as traiçoeiras sereias e a poderosa feiticeira e deusa Circe. Enquanto ele luta contra o destino para retornar, sua leal esposa, Penélope, o aguarda pacientemente em Ítaca.

O CAVALO 

The Odyssey Movie
Divulgação/Universal Pictures

A obra, marcada pelas paisagens deslumbrantes e pela sua riqueza de cores e fotografia, ilustra muito bem como Nolan consegue sempre sair de sua caixa e trazer sua criatividade, ou seja, no quesito grandeza para os seus filmes. Isso ocorre mesmo quando ele trabalha dentro de sua zona de conforto, seja nas estruturas de roteiro ou na escolha de atores com os quais já tem o costume de colaborar. O filme se destaca como uma adaptação não tão detalhista e visceral quanto a obra literária original, mas que envolve o espectador de forma simples e surpreendente, devido aos novos passos criativos dados pela direção.


Em conclusão, Christopher Nolan demonstra uma habilidade que já virou sua marca ao traduzir o épico de Homero para a linguagem cinematográfica. Mesmo precisando realizar vários cortes na densa estrutura literária original, o diretor consegue descrever a essência da Odisseia através do puro espetáculo visual e do peso emocional da jornada.

Ao invés de se prender à exatidão de cada linha do poema, Nolan foca na tradução do sentimento de isolamento, na escala mítica dos desafios de Odisseu e na vastidão do mundo antigo. Com isso, ele prova que uma grande adaptação não precisa ser uma transcrição literal do livro, mas sim uma obra capaz de capturar a alma da literatura e projetar a sua grandiosidade na tela do cinema.


Anne hathaway and Mia Goth
Divulgação/Universal Pictures

O DEUS


Apesar da ira dos deuses durante a volta para casa de Odisseu e sua guerrilha ser um problema monumental para o personagem, um dos pontos mais desagradáveis para quem assiste é como o filme, em vários momentos, assume o ritmo de um grande trailer. O uso excessivo de cortes rápidos e flashbacks cria uma montagem fragmentada que, embora não destrua totalmente a mensagem da obra, torna-se perceptível e exaustivamente repetitiva ao longo da projeção. Essa escolha frenética de edição acaba ditando o ritmo da narrativa e sacrifica o tempo de tela que poderia ser dedicado aos personagens secundários, a mais detalhes durante a viagem ou o caso durante a ilha, assim impedindo que o público crie um vínculo real com todos que participam dos arcos.


Consequentemente, essa fragmentação resulta em uma evidente falta de desenvolvimento na história como um todo. A trama parece ter tanta pressa em saltar de um cenário mitológico para o próximo que esquece de aprofundar as motivações e o peso psicológico da jornada. Um dos exemplos é a A tripulação de Odisseu, ao invés de ser construída com camadas emocionais e conflitos próprios, acaba reduzida a peças descartáveis em tela, fazendo a viagem muito mais rasa mesmo apresentando uma grandiosidade visual durante o filme.


O Mar em Odisseia
Divulgação/Universal Pictures

Além de algumas peças narrativas ficarem de fora, a maneira como os conflitos e a guerra são retratados peca gravemente pela falta de realismo. Diferente de obras que definiram o gênero épico e bélico por sua alegoria no combate como  "300"e "Gladiador". O épico de Nolan escolhe um caminho excessivamente limpo. Faltou a crueldade, a sujeira e o peso punitivo que um filme de guerra de época exige para deixar sua marca. As batalhas, embora esteticamente impecáveis, parecem higienizadas, retirando da tela a letalidade brutal e o terror angustiante que deveriam acompanhar os sobreviventes de Troia.

O HOMEM


A obra de Christopher Nolan, mesmo oscilando entre seus pequenos baixos e altos medianos, encontra o seu ponto crucial na construção de seu protagonista, ainda que o roteiro tropece em falhas estruturais já conhecidas do diretor. Assim como visto em Oppenheimer, há uma insistência na humanização da figura central em meio à guerra, recorrendo ao arquétipo do herói dúbio, imerso em pensamentos e arrependimentos. É evidente como o cineasta repete esses padrões narrativos em diversos filmes, o que afeta diretamente a obra e esbarra em seus velhos problemas, como a construção superficial das personagens femininas e a falta de desenvolvimento adequado para o elenco de apoio.

A Odisseia e Odisseu
Divulgação/Universal Pictures

Contudo, é justamente para compensar essas limitações do roteiro que o filme alcança o seu maior impacto: a atuação de Matt Damon. Durante os 175 minutos de projeção, o ator entrega um verdadeiro espetáculo, sobrepondo-se às falhas narrativas com uma performance magistral. Damon consegue se conectar com maestria aos demais personagens da obra, ancorando a história e elevando o peso emocional das cenas. Enquanto a maior parte do elenco sofre com a falta de aprofundamento, o seu Odisseu é trabalhado de forma muito convincente, entregando exatamente a presença de tela, o carisma e a força que se espera não apenas do protagonista de um épico, mas de um ator do seu calibre.

O REINO


Guerra em Troia
Divulgação/Universal Pictures

Em seu veredito final, a adaptação de "A Odisseia" sob a direção de Christopher Nolan é, sem dúvidas, uma ótima fagulha para despertar o interesse em conhecer mais sobre a literatura grega, descobrir novos filmes e entender a fundo a história por trás da própria adaptação. O longa entrega um espetáculo cinematográfico riquíssimo em imagens e engrandecido por suas atuações impecáveis, lideradas por Matt Damon.

Mesmo com algumas inevitáveis quebras de expectativas ao longo da jornada, a obra se mostra verdadeiramente grande naquilo que faz e constrói em tela, consolidando-se como um prato cheio tanto para os fãs de épicos quanto para qualquer pessoa que queira simplesmente desfrutar de um ótimo filme de época nas telonas.


NOTA: 4/5



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