CRÍTICA | Sexo, demônios e os perigos do cinema neozelandês em Evil Dead Burn
- Artur Soares

- 17 de jul.
- 5 min de leitura

Desde 2013, quando ganhou seu primeiro grande remake, existe um fenômeno engraçado que acompanha esses novos Evil Deads produzidos na Nova Zelândia. O filme de Fede Alvarez parece ter iniciado um padrão seguido religiosamente pelos diretores que assumiram a saga depois dele. A cada filme existe um afastamento maior do que eram os Evil Deads dirigidos por Sam Raimi.
Os elementos que moldaram a saga surgem em momentos isolados, como quem faz uma referência ao que veio antes, mas nunca assumindo o eixo central dessas produções. O humor ácido e escrachado, característica que aparece logo no primeiro filme de Raimi, surge de forma cada vez mais tímida. Em contrapartida, a violência gráfica — um dos responsáveis por fazer Evil Dead se tornar conhecido pelo grande público — é mais elevada, sempre buscando ser mais grotesca que o longa anterior.
Observando esse contexto, parece que os Evil Deads neozelandeses almejam realmente se desvincular da imagem que o público construiu sobre essa IP. O protagonista canastrão deu lugar a sobreviventes traumatizadas, as cenas de comédia se tornaram exceção e o gore exacerbado se tornou uma regra. Se tudo isso é bom ou ruim, vai depender do gosto de quem assiste, mas é fato que essa saga não é mais o que ela foi um dia.

De toda forma, é inegável que essa nova fase está acompanhada de um excelente rigor técnico. Evil Dead (2013) e Evil Dead Rise (2023) foram muito bons, conseguindo resgatar o interesse do público por esse universo de demônios e magias. Evil Dead Burn (2026) mantém a régua alta, mas é bem menos impressionante que seus irmãos.
Um sentimento de cinema independente
Diferente de seus antecessores, que se resumiam a apenas serem gravados na Nova Zelândia e terem uma equipe técnica formada por neozelandeses, Evil Dead Burn tem quase um elenco inteiro com atores que são desse país. Além de trazer um maior holofote para o mercado local de atuação, essa escolha também acaba impactando na estética do próprio filme. A ausência de rostos famosos potencializa o sentimento "independente" que existe ao assistir a produção.
Algo que também pode explicar essa sensação é o baixo orçamento do longa, que foi realizado com apenas US$ 20 milhões. Mesmo sendo o mais caro de sua franquia, Evil Dead Burn ainda foi bem barato para os padrões dos blockbusters de Hollywood. O baixo orçamento fica nítido quando percebemos que a história inteira é ambientada em pouquíssimas locações — sendo a principal delas uma casa no campo, outra marcada registrada na saga. A certeza de que estamos assistindo a um Evil Dead começa, ironicamente, quando os protagonistas chegam até a casa.

Mesmo com uma relativa pouca experiência, o diretor Sébastien Vaniček consegue gravar com uma habilidade impressionante. A câmera dinâmica, que antes era usada quase exclusivamente para representar o ponto de vista dos demônios, ganha novos contornos. Vaniček filma com paixão e não tem medo de deixar sua criatividade fluir, sempre apostando nos enquadramentos menos convencionais possíveis — além de se esforçar constantemente para deixar suas lentes em movimento constante. Acredito que o momento que melhor representa isso é a cena em que a protagonista é colocada contra a parede e a perspectiva vai sendo alterada seguindo o seu movimento.
Entretanto, ainda no que diz respeito à imagem, a falta de iluminação — usado muito provavelmente para disfarçar os efeitos especiais — incomoda muito, principalmente quando é mostrado o exterior da casa. Em relação ao texto, uma qualidade que precisa ser destacada é a forma como o filme abraça a energia sexual para conduzir sua narrativa. Começando pelo grande motor da história: a morte do Will.
A energia sexual como elemento narrativo
Apesar de sua família o considerar como um exemplo de homem, o rapaz colecionava um histórico de agressões contra sua namorada, Alice, que é a protagonista da trama. Dessa forma, Evil Dead Burn se consolida como uma jornada de desprendimento de relacionamentos tóxicos. Sébastien Vaniček usa os elementos fantasiosos para construir o simbolismo de que as vezes precisamos matar nossos demônios internos — em outras palavras, deixar nossos ex's problemáticos no passado.

Além de questionar a performatividade e hipocrisia presente nas relações conjugais tradicionais, o filme também utiliza o erotismo quando aborda os deadites. Apesar da cultura pop sempre flertar com esse imaginário da "pessoa possuída" que propõe sexo como uma forma de provocação, isso nunca passa de mero jogo psicológico.
O longa de Vaniček dá um novo passo nessa dinâmica, com um *quase* sexo entre um deadite e um humano — além de uma cena de beijo bem quente com outro personagem possuído. Não há vergonha em admitir que Evil Dead Burn é o filme hollywoodiano com mais tesão lançado nos últimos anos, o que se mostra um ato de ousadia muito bem-vindo em meio à uma indústria cada vez mais castrada.
Erros que impedem a grandeza
Como mencionado inicialmente, a "New Wave" de Evil Dead parece ter cada vez mais vergonha de utilizar humor. Na nova sequência, a comédia aparece em momentos esporádicos, quase protocolares, como se existisse apenas para fazer um check-list de coisas que não podem faltar em filmes com esse título. Isso, por si só, não incomodaria, se as quebras cômicas não fossem tão deslocadas se comparadas ao resto da narrativa. O humor em Burn não é uma comédia típica de Sam Raimi, mas sim algo mais "Marvel": uma piadinha idiota aqui e acolá, muitas vezes sendo incorporadas exclusivamente por um personagem mais bobinho — nesse caso, a mais idosa da família.

Ao longo dos seis filmes, nunca houve um compromisso fiel em manter a continuidade desse universo. Com isso, o novo capítulo da saga parece reinventar boa parte da mitologia pré-estabelecida. Essa tentativa desesperada em expandir o que já sabíamos acaba, ironicamente, gerando um problema que antes não existia. Se anteriormente os deadites eram forças de puro caos que "viviam" apenas em prol de atormentar humanos, agora eles se tornaram obcecados com a própria existência ao ponto de passarem o filme inteiro em busca de uma adaga mágica. Essa motivação não enriquece os vilões, pelo contrário, só os torna menos interessantes, sendo reduzidos ao clichê de filmes de terror em que tudo se desenvolve em torno de um objeto místico.
O principal empecilho que impede essa continuação de ser grandiosa é o seu encerramento. Depois de colocar fogo em seu passado, Alice precisa enfrentar seu principal nemesis: seu ex-marido. A ideia é boa, mas a execução não é das melhores. A começar pelo visual que, além de tosco e meio apelativo, é completamente distinto do que havia sido mostrado até então.

Além disso, a ausência de Will durante quase o filme inteiro para surgir apenas no encerramento me incomoda. Ele é o grande responsável por fazer a história começar, o que gera a sensação de que o personagem vai desempenhar algum papel importante no que desencadeou. No fim, ele surge apenas durante os últimos 20 minutos apenas para encerrar o arco da protagonista.
Incertezas sobre o futuro
Sendo uma mistura de erros e acertos, Evil Dead Burn é a consolidação do novo caminho que essa franquia está seguindo. Apesar do saldo ter sido positivo até agora, o que se desenha para o futuro parece não ser tão interessante — vide as cenas pós-créditos estilo filme de herói. De toda forma, só o tempo será capaz de dizer se a saga vai continuar com a régua lá em cima ou terá um derrocada daqui para frente.

Até que esse dia chuegue, o que resta é reconhecer a qualidade do trabalho que está sendo realizado até aqui. O longa dirigido por Sébastien Vaniček se destaca por sua execução fluída e impressionante. O subtexto também é bem realizado, trazendo uma profundida simbólica que não existe na saga. Infelizmente, nem tudo exibe esse nível de qualidade, com algumas decisões questionáveis ganhando espaço principalmente no último terço da produção.
Nota: 3,5/5🔥




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