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CRÍTICA | A Empregada comete o erro das adaptações literárias para o cinema

A Empregada

Quando falamos sobre adaptações de outras mídias — como livros, peças, videogames e etc — para os cinemas, sempre existem aqueles que defendem que o material original precisa ser recriado de forma precisamente exata. O que essas pessoas parecem não levar em consideração é que, para cada forma de arte, existe uma forma específica de escrita. Se você utiliza o material original como mero esboço, o resultado final muito provavelmente será medíocre — uma vez que o filme está tentando emular uma linguagem que não é sua. Esse é o principal defeito que existe nessas adaptações de best-sellers recentes, como É Assim que Acaba e agora A Empregada.


Você nem ao menos precisa ter lido o livro para perceber que existe uma tentativa falha de transpor página por página para o audiovisual. A forma como a história é estruturada, a maneira como a narração é usada para mostrar os pensamentos dos personagens, os plot twists.


Tudo é produzido de forma extremamente literária, mas não em um sentido positivo. A forma como essas histórias são conduzidas só "funcionam" — o uso de aspas é porque eu tenho a impressão que o material original deve ser tão ruim quanto — em páginas de livros e não no audiovisual. Há quem possa argumentar que isso seja um demérito da escrita dos próprios livros, mas não estou aqui para julgar isso, mas sim a incompetência de quem os adapta em burlar isso.


A Empregada

Um grande exemplo disso tudo em A Empregada é o momento do grande plot twist. Quando descobrimos que a esposa era na verdade uma vítima, o filme abre um parênteses enorme para que a personagem de Amanda Seyfried explique detalhe por detalhe de sua história. A sequência é longa, quebra o ritmo do filme e ainda é extremamente expositiva.


O mais engraçado disso tudo é que a personagem de Seyfried estava escrevendo uma carta em que explicava tudo para sua filha, porém, mais para frente na história é mostrado que a garota parecia ter plena noção de tudo aquilo que acontecia. Para quem assiste, fica perceptível que esse grande momento era um capítulo próprio do livro, ou ao menos um momento mais destacado do resto da trama, e que simplesmente não funcionou no filme.


Mas, o que mais irrita não é nem isso. O maior problema das obras de autoras como Colleen Hoover e Freida McFadden é como elas são extremamente parecidas entre si. São sempre as mesmas questões, a mesma estética, a mesma forma de escrever. Me irrita como, mesmo sendo diferentes no macro, elas são tão parecidas em suas essências, ao ponto de só de bater o olho você consegue perceber que um filme X é adaptação de um livro desse estilo.


Voltando a falar sobre A Empregada em si, existe algo que eu gosto bastante nele que é a construção de uma certa dualidade. A personagem de Seyfried é inicialmente apresentada como uma desequilibrada, mas em certo momento o público passa a questionar se a protagonista não seria a verdadeira louca. Sempre que Millie acusa Nina de fazer algo errado, elas estão sozinhas. A personagem também demonstra ter um passado com a polícia, além de já começar a obra mentindo sobre sua verdadeira situação, o que deixa a dúvida se ela realmente seria sã.


A Empregada

Uma pena que esse suspense e dualidade iniciais são rapidamente deixados de lado. Em vez disso, o diretor Paul Feig decide investir no clima de romance entre Sydney Sweeney e Brandon Sklenar, algo que parece completamente deslocado do resto — não me refiro ao fato deles dois terem se pegado, mas sim a forma como a sequência é construída, como se fosse um filme de romance genérico com música pop ao fundo.


Existem muitos temas interessantes que são apresentados, mas sempre trabalhados da forma mais rasa possível. A violência doméstica, o gaslight, a invalidação continua da mulher na sociedade. Todos esses tópicos são dignos de debate, mas em A Empregada eles são meros utensílios narrativos. Se esses tópicos tivessem sido melhor desenvolvidos, talvez não ficasse tão óbvio em como a história do filme é previsível, utilizando de tropos já batidos nesse universo de thriller psicológico doméstico.


A Sydney Sweeney é disparada a melhor coisa do filme. Eu particularmente gosto bastante desses trabalhos dela mais voltados para o suspense, em que ela termina o filme coberta de sangue igual uma típica final girl de slashers. Acredito que, se ela contratar um agente melhor, ela tem potencial para se tornar um grande ícone feminino desse "novo horror" que está sendo estabelecido nos últimos anos — lugar esse que atualmente é ocupado pela Mia Goth. E é justamente por causa dela que eu acabei me divertindo mais do que esperava com o filme. Uma pena que a rainha sozinha não consiga ofuscar os outros problemas que rondam isso aqui.


A Empregada

Uma coisa que percebi ao longo dessas mais de 2 horas é que a obra parece estar sempre tentando adicionar mais e mais coisas. Primeiro a dona da casa é psicóloga, depois a protagonista tem histórico criminoso, depois a filha do casal também é estranha, depois o marido é um torturador, depois a policial era irmã da ex-noiva do cara. São tantas coisas adicionadas que a impressão que fica é que a maioria só está ali jogada mesmo. A policial do final ser irmã da ex-noiva do vilão é um perfeito exemplo disso. O filme só faz uma coincidência absurda para que a Nina saía impune de tudo que aconteceu.


O final termina da forma mais vergonhosa possível, dando a entender que a Millie começou uma espécie de jornada de assassina para vingar mulheres que sofrem abuso. Eu acho legal a ideia de você retratar o abuso doméstico sob uma vertente mais trash e sanguinolenta, mas é simplesmente fora de tom uma obra que se levava tão a sério terminar dessa forma. Além disso, a personagem de Sweeney parece simplesmente aceitar que foi usada como um peão e nem se importa em como Nina a manipulou. Enfim, a explicação disso deve ter sido alguma parte do livro que eles não leram.


Nota: 2,5/5



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